Juremir Machado da Silva

Brasil, país de delatores

Costumamos repetir o que construímos ao longo dos séculos. “Xica da Silva, a cinderela negra”, livro de Ana Miranda, dá um toque nesse sentido. Faz ver que temos pouca imaginação quando se trata de escapar da justiça e muito jogo de cintura para driblar as leis. Somos um país de delatores. D. João V, rei de Portugal, mandou cercar o distrito diamantino, em Minas Gerais, para fazer cessar a extração de diamantes que estava derrubando os preços na Europa. A repressão foi dura.

A delação foi amplamente premiada: “Se o produto da delação fosse maior do que duas arroubas de ouro, o delator recebia certidões para, junto ao rei, requerer honras e mercês – cargos, ofícios ou ocupações honorificas. O escravo que denunciasse seu dono recebia, além da terça parte do confisco, a carta de alforria. A política da denúncia premiada criou uma casta de gente que vivia disso, usando de qualquer meio, até os mais vis, para auferir vantagens”. Algo mudou? A coroa portuguesa e sua tropa de choque no Brasil adotavam todos os meios para coibir os golpes contra a pedra mais preciosa, mas, como percebeu o viajante Auguste de Saint-Hilaire, “a ambição e a astúcia zombavam de todos os temores e triunfavam sobre todos os obstáculos”.

O raciocínio dos que desobedeciam era simples: por que entregar para um rei distante, que vivia no luxo e na farra, embora poucos soubessem disso por falta de meios de informação, a riqueza oferecida pela natureza a quem estivesse disposto a recolhê-la com o suor dos seus escravos? Os governos já aprontavam o de sempre, vendiam direitos de exploração de terras e depois, com novos e preciosos interesses, quebravam os investidores impedindo-os de trabalhar. A população passou a proteger os “garimpeiros” da justiça e dos governantes. Naquele tempo, só naquele tempo, poder servia para alimentar o poder.

A massa chafurdava na miséria aprendendo jeitinhos para sobreviver. Uma camada enriquecia pelas vias laterais, surrupiando o que podia. Outra parte, composta de burocratas, vivia cada dia como se fosse o último. Saint-Hilaire anotou: “Os habitantes do Tijuco não fogem a esse caráter de imprevidência que infelizmente tanto distingue os brasileiros: eles gastam à medida que recebem e frequentemente os empregados da administração diamantina morrem endividados, apesar de seus ordenados serem consideráveis”. No Brasil de hoje o intrépido viajante defenderia a reforma da Previdência e as aposentadorias complementares? A maioria nunca teve o que poupar.

Ainda não tem.

O que aprendemos com o passado? Nada. Ou quase. Saber o que fomos e fizemos não decreta nem impede o que seremos. Não há determinismo histórico. Como eu falo bonito! Feio era esse passado construtor de privilégios. Nas palavras de Ana Miranda: “Só podia participar da cavalaria o pretendente que fosse branco; os demais eram enviados para a infantaria, que aceitava pardos e negros libertos”. Havia cavalos, cavaleiros e homens cavalgados. Desde quando eram crianças. Restava à cavalgadura derrubar quem a montava. Bem-feito!