Juremir Machado da Silva

Bruxos, vampiros e emos

Bruxos, vampiros e emos

Não tem mistério.
Quem quiser fazer obra de mistério, deve colocar em cena um bruxo (ou bruxinho), um vampiro ou um mago.
Sempre dá certo.
Que mistério!
Não tente usar um lobisomem. Não funciona.
Lobisomem é bicho de Terceiro Mundo.
Terceiro mundo, não. País emergente.
É brega.
Seria como tentar fazer sucesso na era da globalização com um saci, uma mula-sem-cabeça, um boitatá, o bicho-papão ou qualquer outro monstrinho incapaz de falar inglês e de comer hambúrguer todo dia.
Também não tentem usar o José Serra.
Seria considerado campanha eleitoral antecipada.
Nem o Ahamadinejad.
Afujenta o público. A bilheteria cai. Não é pop.
A cadeia simbólica perdida está, enfim, recuperada:
Halloween aos três anos de idade; Harry Potter aos dez; Lua nova aos 15, Paulo Coelho aos 20; Dan Brown aos 30; Ana Maria Braga aos 60, José Sarney aos 80. A vida é simples: vai do bruxinho ao Louro José. Ou do bruxo à bruxa. Tudo se interliga, tudo se relaciona. Complexo.
É puro filme de terror.
O problema não é a sua filha se apaixonar por um vampiro. Isso até que passa. Parece que tem vampirinho bacana. Ou isso não passa do crepúsculo das ilusões ou do eclipse da velha cultura pretensamente erudita. Já houve pior: as filhas que se apaixonavam pelos hippies, pelos yuppies ou pelos Menudos. É dura a vida de um pai.
É por isso que não tenho filhos.
Não, não vou citar aquela frase de Machado de Assis sobre não transmitir a ninguém o legado da nossa miséria.
Afinal, miséria pouca é bobagem.
Sou mais pragmático: não fornecerei público para os chupadores de sangue do futuro. Sou muito rabugento.
Mas não sou Casmurro. Acho.
Vampiro passa.
O problema é a sua filha se apaixonar por um emo.
Vampiro, tudo bem. Emo, não.
O problema do emo está na cabeça.
É aquela franja misteriosa.
Pensando bem, parece uma lua nova.
Quem já não uivou para a lua?
Eu uivei. Até cansar. Não adiantou.
Irei ao cinema ver Lua nova.
Adora histórias velhas. Vejo novela de tevê.
Já tivemos os dark, os góticos e o Batman.
Agora tempos os vampiros e os emos.
Na época da transparência total e da visibilidade tão sonhada pela maioria sedenta de fama, o preto atrai como nunca. O excesso de luz exige um pouco de sombra.
A lua cheia está out.
Era a lua dos românticos, do maus poetas, dos namorados, das edições Paulinas e dos cartões postais.
E dos lobisomens.
A lua cheia é trash.
A tendência agora é a lua nova.
Lua minimalista. Lua de best-seller.
Lua de emo.