Céline, a máquina de escrever
Raramente aparece um grande livro. Dificilmente um autor consegue manter a regularidade. Talvez por isso posmodernos tenham inventado o culto da esterilidade: escrever pouco. A maioria dos grandes escritores, ao contrário, sempre escreveu muito. Tchecov deixou mais de 600 textos. Céline, o melhor de todos os franceses do século XX, produziu muito e com as todas as contradições, exceto uma: nunca escreveu mal. Mas, para a academia, também não escrevia corretamente. Incorporou o falar popular o sujou o texto até torná-lo vivo e fétido. É um caso excepcional de literatura com bom cheiro. De merda.
Obra e homem podem contradizer-se furiosamente. Viagem ao fim da noite, primeiro grande romance de Céline, homem que se tornou de extrema-direita, é uma narrativa socialmente tão devastadora que pôde até ser considerada como uma ode aos excluídos. A magia de Céline, em oposição a um Joyce, consiste em ter exposto as entranhas da linguagem sem se tornar ilegível nem fabricante de palavras cruzadas. O mesmo Céline, em outras obras, mostrou a ideologia nojenta que adotou: o anti-semitismo. Em 1936, Céline fez uma viagem a Leningrado, onde, médico que era, visitou um hospital de doenças venéreas. Ao retornar, culpou os judeus e os comunistas pela podridão do lugar e do mundo.
Céline escreveu, de 1936 a 1941, três panfletos racistas, ainda proibidos na França e em outros países da Europa, que revelaram sua decomposição moral: “Bagatelas por um massacre”, “A escola dos cadáveres” e “Maus lençóis”. São repugnantes e hediondos. Porém, genialmente escritos. Sente-se a fúria, o vômito, o animalesco. Podem ser encontrados, a altos preços, nos “buquinistas”, livreiros à beira do Sena. Os apaixonados por literatura disputam-nos a tapas. Ganhei de um amigo socialista “Maus lençóis”. Li, de empréstimo, “A escola dos cadáveres”. Outro dia, em Porto Alegre, comprei, na calçada, um excerto de “Bagatelas por um massacre”, resultado da sua viagem a Leningrado, numa edição de Lisboa: “Vão navios cheios de fantasmas”. Sobre as enfermeiras do lugar: “Todas vacilantes, descarnadas, a pendurarem farrapos... de uma ponta à outra daquele esterco”.
O surpreendente em Céline é a mesma torrente da escrita a serviço do bem e do mal. Repito: poucos conseguem tamanha regularidade. Machado de Assis teve uma fase romântica capaz de tornar revistas como Sabrina e Carícia obras-primas. Shakespeare consegue, às vezes, enfileirar peripécias de dar inveja aos autores das novelas da Globo. Nélson Rodrigues chegava a repetir-se a cada três crônicas. Ainda assim, todos foram geniais. Shakespeare, claro, mais do que todos. Machado de Assis ombreia com Céline. Nélson já é um segundo time. Nenhum deles, contudo, estraçalhou a linguagem, levando-a a um grau máximo de comunicação, como Céline. A arte prescinde de caráter. Os gênios, em geral, são canalhas que nunca conquistarão o paraíso. Azar! Boas intenções não bastam.
Céline não valia nada. Picasso era um machista e megalomaníaco que não respeitava ninguém. Marx comia a empregada. Freud impôs a sua lei. Einstein mentia pelos cotovelos. Lacan, que nem gênio era, mas impressionou muita gente, sabia como pouco sacanear suas mulheres e amigos. Os gênios têm em comum a capacidade de revelar que a humanidade não é muito diferente deles, embora existam, felizmente, exceções. Todos os aqui citados repetiram, cada um ao seu modo, a máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. Para Céline, o homem era o estafilococo do homem.
Só que alguns acreditavam num futuro positivo e de liberdade, ou, ao menos, admitiam essa possibilidade, e outros, como Céline, caíram no lodo para sempre. Tudo em Céline se perdeu, salvo a inacreditável selvageria de um texto sem igual. De vez em quando, aparece um escritor, mesmo no Brasil, capaz de, em algumas frases, lembrar Céline. Luiz Ruffato, em “Eles eram muitos cavalos”, um belo e fragmentado romance sobre o cotidiano de São Paulo, consegue um ou dois momentos iluminados de violência textual. Depois, perde-se na oscilação entre Joyce e Rosa.
Céline era uma máquina de escrever desgovernada. Tinha o controle absoluto do texto. E o descontrole total da sua consciência. Inconsciência genial: “As mais irremediáveis, mais infamantes catástrofes não são aquelas onde as nossas casas desabam; são as que dizimam as nossas magias”.
O Brasil sempre quer ser o que não.
Agora é Maria Betânia tentando deixar de ser o que é, uma maravilhosa cantora discreta, para ser uma mamadora nas tetas públicas. Blog de poesia com mais de um milhão de reais? Para quê? Só se for para pagar os leitores.