Cadê a ouvidoria da Câmara de Vereadores?
Eu sou tolo. Acredito em instituições e nos seus mecanismos de escuta. Na verdade, creio em símbolos, mitos e até na racionalidade dos homens. Por aí já se vê o tamanho da minha estupidez. A minha hipótese principal sobre as manifestações que sacodem o país desde junho é simples: crise de escuta. Antes das redes sociais, os meios de comunicação eram fundamentalmente mecanismos de emissão. Um emissor para muitos receptores, cujas respostas eram fracas e quase sempre neutralizadas. Com o facebook, o twitter e outras ferramentas interativas, todo mundo pode falar.
A questão ainda é ser ouvido.
A questão é ser ouvido pelas autoridades. Elas juram que estão atentas a tudo, mas nem sempre espicham o ouvido para escutar o grito das ruas e das massas. Não basta ter orelha comprida. É preciso ter ouvido poderoso. Escutar é muito mais difícil do que dar respostas prontas. A Câmara de Vereadores de Porto Alegre tinha uma ouvidoria. Ela teria sido desativada em maio de 2012. De lá para cá, silêncio. O quiosque da ouvidoria da Câmara de Vereadores, localizado no Mercado Público da capital gaúcha, foi desmontado em maio deste ano. Será que a falta de ouvidoria contribuiu para o recente conflito entre vereadores e indignados? Não sei. Apenas pergunto.
Ando cheio de perguntas. Uma crise de escuta produz crise de representatividade e de legitimidade. O jogo democrático é sutil. Cada representante é eleito por uma parte (partido). Mas, escolhido, havendo legitimidade, passa a ser aceito como representante de todos. O sistema começa a fazer água quando essa aceitação não mais ocorre. Por que não? Porque o eleitor não se sente mais escutado. A surdez política é uma doença grave. O surdo político responde antes de ouvir. Só ouve a própria voz.
O observador social precisa estar atento aos sintomas de tudo aquilo que afeta o bom funcionamento da sociedade.
– Por que a ouvidoria da Câmara acabou?
Essa pergunta traduz um sintoma. Tudo indica que a escuta falhou. Por que falhou? Estariam os vereadores cansados de ouvir ou desejosos de calar a voz dos indignados em preparação? Dificilmente. É mais provável que tenha sido alguma falha burocrática, administrativa ou simplesmente arrogância. Antenas do cidadão, eles talvez considerassem desnecessário ter uma ouvidoria para escutar o que pretensamente sabem por conexão permanente com o mundo da vida. Não sei. Mas sei que alguns vereadores reclamaram e até se ofereceram para o papel de ouvidor. Por que não foram aceitos?
Não acuso. Pergunto.
A crise de escuta leva a dois caminhos igualmente perigosos: esclerose da comunicação ou explosão dos canais convencionais de diálogo. A depressão se dá quando não se acredita mais na comunicação. A ruptura ocorre quando há desejo represado de escuta e de expressão. Talvez, simbolicamente falando, seja um bom momento para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre reabrir a sua ouvidoria. É hora de sinalizar algo. Não basta um “estamos de olho”. Precisa um sonoro “estamos ouvindo”.