O que leva um homem de 35 anos, pai de três filhos, a decapitar o seu patrão, considerado um cara bom e dedicado à sua comunidade, e a cometer um atentado que o deixará marcado para sempre? A resposta é clara: o fanatismo. O que leva um homem a tornar-se fanático? Yassin Salhi, o muçulmano radical que cortou a cabeça de Hervé Cornara e a pendurou nas grades da fábrica de gás industrial Air Products, em Isère, na França, foi, durante muito tempo, um sujeito comum. Depois, encontrou um guru, conhecido como Grande Ali, e começou a sua lenta deriva para o outro lado da cultura, a margem da intolerância e do ódio devastador. Chegou a ser fichado. Eu estava em Paris quando o atentado de Saint-Quentin-Fallavier aconteceu. Passei o dia acompanhando o noticiário e vendo as reações das pessoas nas ruas.
O verão torna os europeus incrivelmente descontraídos e simpáticos.
Desnudam os seus corpos e sorriem. Sob o calor de mais de 30 graus, Paris não mostrava grande preocupação com o ocorrido. Por toda parte, turistas comiam e bebiam ao ar livre como se de nada soubessem. Talvez fosse o caso. Fomos ao Palácio da Justiça ver o movimento dos policiais que se aquartelam no prédio adjacente. Acompanhamos a saída de um grupo de homens em deslocamento para o local do atentado, entre Grenoble e Lyon. Estavam muito sérios, mas, embora tensos, não exibiam sinais de uma pressão maior. Pareciam cumprir a rotina. Vez ou outra, porém, uma palavra escapava denunciando um autocontrole só da boca e dos olhos para fora.
–– Aconteceu.
–– Até que demorou.
–– Era uma questão de tempo.
A tensão estava concentrada na mídia e nas autoridades. O presidente François Hollande mandou acionar o alerta de terrorismo na região do atentado. O primeiro-ministro Manuel Valls tratou de deixar claro que todas as medidas de segurança estavam sendo tomadas. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, foi prontamente ao local do atentado. A presidente da Frente Nacional, de extrema-direita, Marine Le Pen, aproveitou para defender o fechamento das fronteiras e a expulsão da França de todos os muçulmanos radicalizados com passagens na polícia ou fichados pelos serviços de segurança. O sociólogo Dominique Wolton fez questão de lembrar que não se pode confundir a ação de um fanático muçulmano com o islamismo inteiro. Toda a engrenagem passou a girar.
A máquina do medo começou a funcionar.
Voltei para o Brasil. Ao descer em São Paulo, parei diante de um aparelho de televisão. “Bombas” por todos os lados. Encontrei um exemplar da Folha de S. Paulo. “Explosões” em série. Corrupção. Um escândalo sucedendo o outro. Como em Paris, certamente pela distância do atentado, todo mundo seguindo em frente. Cada país tem os seus crimes hediondos? Cada país tem a sua indignação e os seus indiferentes? Certamente.
O que faz um homem comum virar terrorista e fanático?
O que faz um político mergulhar na corrupção? Uma causa? Todas as explicações não parecem ser suficientes.
É o Homo demens.
A loucura de uns tem o nome de ganância.