Juremir Machado da Silva

Caderno de Sábado: dez anos sem Baudrillard

O Caderno de Sábado chega a três anos, 156 edições.

Para comemorar nada como um número muito especial.

Dez anos sem Jean Baudrillard, o maior pensador do pós-tudo.

E nada como contar com textos inéditos de Michel Maffesoli, amigo de Baudrillard, Sylvère Lotringer, editor de Baudrillard nos Estados Unidos e professor na Universidade de Columbia, Muniz Sodré, professor da UFRJ, amigo e grande leitor de Jean, e Francisco Rüdiger, admirador e crítico do grande pensador francês.

De Lotringer publicamos um texto na edição impressa e ainda oferecemos aqui revisto o elogio que ele faz a Baudrillard em 2007, um dia depois da morte do autor de Simulacros e simulação e tantas outras obras seminais.

Para relembrar Jean Baudrillard, filósofo assimétrico

 

Sylvère Lotringer

 

Seria paradoxal chamar Jean Baudrillard de "um verdadeiro original", que ele realmente era, uma vez que negava que vivêssemos num mundo no qual a originalidade ainda fosse possível. Baudrillard deu essa notícia em Simulacros e Simulação, que eu publiquei pela primeira vez nos Estados Unidos em 1983, e permanece, de longe, seu ensaio mais influente. Esse livro o tornou imediatamente famoso no mundo da arte de Nova York, muito mais do que ele conseguiu ser na França. Poucos artistas americanos na época perceberam que ele estava proclamando seriamente o fim do princípio da realidade, consumido pela abstração em espiral do capital. O que eles tomaram por uma sacada inteligente sedutoramente empacotada no gênero ficção foi, de fato, o ponto final de uma ampla visão abrangendo toda a história da humanidade, as sociedades subindo e desmoronando, as mais sábias implodindo em câmara lenta, outras como a nossa correndo a toda velocidade para o esquecimento.

Foi o início de um mal-entendido cordial que durou até a sua morte. Ele fez pouco para dissipá-lo, exceto por ocasionais explosões argumentativas, como seu ataque brutal em A Conspiração da Arte, que não abalou o mundo artístico tanto quanto deveria por seus argumentos. Baudrillard percebia a lógica dos negócios e previu desde muito cedo que o mundo da arte se reduziria também a isso. As suas advertências agora são suaves em comparação com a explosão global que finalmente tudo engolfou poluindo o mundo com "arte". A simulação em si, captada por Matrix, acabou se tornando um blockbuster, transformando ainda mais Jean Baudrillard numa estrela mundial.

Ele não se encaixou bem no papel, embora uma vez, perto de Las Vegas, relutantemente tenha aceitado usar uma jaqueta de lamê dourado para dirigir-se aos seus fãs, e realmente gostei disso. Como pessoa, ele era, de fato, espetacularmente pouco carismático e nada impressionante, tudo menos o dândi ou a personalidade excêntrica que a maioria das pessoas achava que ele era, exatamente como William Burroughs, a quem poderia ser comparado, como "El Hombre Invisible", e ainda mais visível para isso. Na verdade, Baudrillard não se importava com a imagem legal que desmentia a sua aparência. Ele até tentou habitá-la, chamando seus diários de Cool Memories. Certamente ele instilava frescor em sua escrita, usando uma mistura saudável do humor cáustico e do cinismo nas suas crônicas sobre os últimos lances de uma civilização desleixada que se esvaziava dos seus valores mais vitais, inclusive a morte, merecendo o seu destino.                    Teórico mais contundente da mídia eletrônica, junto com o urbanista Paul Virilio, Baudrillard nunca usou um computador e quase nunca viu televisão, tendo quebrado de uma vez por todas o seu código. Em vez disso, ele se movia silenciosamente atrás da tela, como as massas que ele generosamente legitimou com sua própria resistência obstinada à mídia (À Sombra das Maiorias Silenciosas). Baudrillard sempre garantiu, como uma criança numa bolha, que não seria contaminado por uma cultura mediatizada que desprezava com uma paixão tão fria que fez dele o seu analista mais perspicaz.         Num mundo em que as diferenças se tornavam espécies ameaçadas de extinção, ele sempre teve o cuidado de preservar sua própria indiferença, cultivando o vazio com a esperança de ver emergir eventos reais. Essa era a sua maneira de pensar. E ele era um pensador poderoso, uma das mentes políticas mais lúcidas do nosso tempo, e o mais desdenhoso do que atualmente acontece na política.        Quando os acontecimentos explodiram repentinamente - como o de maio de 68, ou os ataques de 11 de setembro - ele provou ser o único equipado para reconhecê-los pelo que eram, tendo esculpido para eles um espaço vazio em sua teoria. O seu impressionante "Requiem para as Torres Gêmeas" conseguiu responder ao acontecimento, ampliando seu ainda mais o seu poder, enquanto todo mundo estava ocupado acumulando análises ou explicações para enterrá-lo. Em vez disso, deixou os ataques sem precedentes absorverem todos os eventos passados ??e futuros como uma bomba. Certamente um filósofo assimétrico precisa entender estratégias assimétricas desse tipo.  Baudrillard não era um filósofo acadêmico, mas era mais filósofo do que a maioria, sendo um artista no pensamento, um profeta do presente, capaz de antecipar com uma precisão alucinante a forma que o nosso mundo tomaria em anos ou décadas. Ao contrário do que a maioria acreditava, ele era, de longe, o pensador mais realista de nossa época.

* Professor aposentado da Universidade de Columbia, Nova York.

 

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