(O Caderno de Sábado rende homenagem aos 80 anos de Sem Rumo, de Cyro Martins. Faço o mesmo neste espaço em tom de depoimento cheio de admiração)
*
O minuano soprava forte e dolorido. Eu era guri em Palomas e na Florentina, em Santana do Livramento. Sempre com uma sensação de deslocamento. Nos colégios da cidade eu era visto como um menino da campanha, meio grosso, meio tosco, depois adolescente que não ouvia Beatles, não andava na moda, ou com as turmas que bancavam as tendências, e o pai não tinha carro. No campo, eu era tratado como gurizinho urbano, que lia romances e não vestia bombacha. Fiz teatro amador. O teatro de meus colegas era poético, surrealista, sofisticado. O meu era ingênua e cruamente realista. Puro grito de rebeldia. Essa ainda é a minha marca. Acadêmico no jornalismo. Jornalista na academia. Autoexilado exótico em Paris. “Francês” no Brasil. Sou o que li deitado em pelegos dentro de uma velha carreta.
O que li durante um tempo de crise existencial em que tentava me decidir ou tomar rumo: entrar para o exército, para uma ordem religiosa ou ser ator no Rio de Janeiro? Eu delirava em noites de céu coalhado de estrelas. Nunca mais vi tantas. Nunca mais as vi tão brilhantes e belas. Nas tardes tão longas quanto os invernos mais tristes, eu lia Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Erico Verissimo e Cyro Martins. Depois, descobri a prateleira dos franceses e me evadi. Ando perdido por aí. Se me acharem, avisem. Há recompensa. Não levem a sério as ofertas de quem paga mais para eu não ser encontrado. Eu lia Simões Lopes Neto, ria e sonhava. Eu lia Erico e achava bonito, épico, eloquente, até grandioso. Eu lia Darcy Azambuja e me reconhecia. Eu lia Cyro Martins e chorava sozinho. Era tão verdadeiro.
Éramos nós.
Fiquei marcado com ferro em brasa para sempre. Para mim, os escritores dividem-se em duas categorias: os que criam ou disseminam mitos; e os que os descontroem. Ambos são fundamentais. Não se vive sem mitologias. Mas eu pertenço ao grupo dos que gritam dolorosamente:
– Eu vi, é truque.
Li “Sem rumo” e fiquei atônito. Li “Porteira fechada” e me desesperei. Li “Estrada nova” e não acreditei. Era realista demais. Quando meu avô vendeu seu campinho, que eu sonho em comprar, fui até lá com um tio e na tapera, com apenas um rodado de carreta lembrando os velhos tempos, eu pensei na última frase de “Porteira fechada”.
– Que paz naqueles campos!
Penso nisso cada vez que volto lá e molho minhas mãos nas águas límpidas da lagoa da minha infância. Quantas vezes já escrevi sobre Cyro Martins? Quantas vezes já contei minhas histórias? Quantas vezes lembrei que tentei convencer um professor, em Porto Alegre, a convidá-lo para uma palestra aos alunos de jornalismo? Meus colegas não entendiam. Eles eram tão urbanos. Eu era o aluno rural da turma. Era a prosa de Cyro Martins que me revelava, emocionava e desnudava. Um amigo mais literário, numa mesa de bar, me jogou nas cordas ao dizer:
– Cyro é meio tosco.
– Como eu? – balbuciei.
– Como tu – ele socou.
Numa apresentação de “Porteira fechada”, Carlos Jorge Appel, principal editor de Cyro Martins, criador da expressão “trilogia do gaúcho a pé”, escreveu: “O término da I Guerra Mundial (1914-18) traz, no seu rastro, a quebra do Banco Pelotense e a falência dos principais frigoríficos das cidades fronteiriças do Rio Grande do Sul, indícios significativos de que o sistema tradicional de produção da campanha gaúcha evidenciava sua exaustão e entrava em colapso”. É desse mundo que tratará Cyro Martins em seus livros. Eu o entendi mais do que nunca quando fomos morar no Wilson, bairro com nome de frigorífico, e meu pai, depois de aposentado da Brigada Militar, foi trabalhar no Armour, de onde voltava com latas de carne em conserva e com ar de cansaço. Eu tinha medo de que meu pai virasse um novo João Guedes.
Personagem de Cyro Martins, João Guedes é o gaúcho sem pilcha e sem cavalo, sem rumo, sem destino, sem estrada nova. Quantos eu vi na minha vida, acocorados na frente dos bares, os bolichos da periferia das pequenas cidades, da minha, como diz na linda música, desgarrados contando bravatas, velhas histórias? Às vezes, eu até provocava:
– Lá vai mais um João Guedes.
Meus amigos e parentes ficavam curiosos. Eu lia Cyro Martins para eles à sombra de um cinamomo enquanto meu avô sesteava. Depois, lia só para ele, que era analfabeto, mas respeitava muito os livros, admirava os que sabiam ler e sabia contar deliciosas histórias.
– João Guedes sou eu – ele dizia.
Falava sem imaginar que se igualava por um torto caminho a certo Gustave Flaubert do qual nunca tomaria conhecimento, mas cujas histórias certamente teria aplaudido e repetido a quem lhe desse ouvido. O tempo passa como uma flecha parada no ar, certeira e imóvel, agudo como o sopro do minuano. Na melancolia da cidade grande, esta cidade na qual eu vivo e possivelmente morrerei, na cidade pulsante, quando o sol se põe, eu penso em João Guedes, eu penso em meu avô, em penso em meu pai, em penso em todos os gaúchos a pé que conheci e conheço, eu penso no grande Cyro Martins e me ouço dizer baixinho:
– Que paz naqueles campos!