Juremir Machado da Silva

Caetano Veloso surpreende-se com seus leitores

Caetano Veloso surpreende-se com seus leitores

Mestre Caetano

Eu estava lendo a coluna de Caetano Veloso no jornal “O Globo”, em Ipanema, no Rio de Janeiro, quando uma visão do paraíso me desconcentrou um pouco. Tirei os óculos e continuei a leitura.
Estou nessa fase em que sem óculos se enxerga melhor o que realmente interessa.
Caetano Veloso é um dos compositores mais geniais de todos os tempos no Brasil. Mas não chega a ser um grande colunista. Falta no seu texto o que sobra em suas canções: sinuosidade e tempero. Ainda assim, fiquei sensibilizado com o texto do velho mestre. Ela falava dos comentários de leitores sobre a sua coluna. Queixava-se que não ouvia tantos comentários quando só escrevia num blog. Surpreendia-se com seguidas observações de leitores deste gênero: “Nunca imaginei que você fosse capaz de escrever prosa”. Que ingenuidade, Caetano! É assim.
Explicação do próprio Caetano: observações desse tipo dão a entender que o leitor desconhece o fato de que ele publicou um livro, “Vereda tropical”. Caetano é colunista principiante. Ainda se espanta com alguns clichês de leitores, que, em geral, são sensíveis e pertinentes, mas, algumas vezes, repetem o esperado quase com candura.
Eu mesmo, aqui no andar de baixo, respondo todos dias, cinco a dez vezes, a uma pergunta fatídica: onde encontrar meus livros? Vez ou outra, tenho vontade de responder laconicamente: nas livrarias. Fico, porém, com medo de dar informação falsa. Leitor é assim, Caetano. Num mesmo dia, um manda dizer que a gente nunca escreveu tão bem, e outro, com a mesma certeza, diz que nunca o texto esteve tão ruim. Um critica um texto por ser muito à esquerda, outro censura o mesmo texto por seus direitismo. É a magia da interpretação livre. Uau!
Apesar de estar no jornalismo há 25 anos, há quase 11 anos como colunista do Correio do Povo, tendo feito de tudo um pouco antes, inclusive correspondente internacional em Paris, recebo comentários diários no estilo “estás começando bem” ou “só agora fiquei sabendo da tua coluna”.
Muitos leitores me perguntam se pretendo publicar minhas crônicas em livro, ignorando que já fiz isso três vezes, em “Para homens na crise dos 40 e mulheres interessadas em compreendê-los”, “Aprender a (vi)ver” e “Para homens na crise dos 40 e para mulheres interessadas em compreendê-los, edição revisada e ampliada com novas descobertas sensacionais e hipermodernas”. Bem-vindo, Caetano, aos ossos do ofício!
O mestre acaba de descobrir a roda: jornal em papel tem mais repercussão do que blog na internet; os leitores fixam o que consideram ser a atividade principal de uma pessoa e tendem a não perceber o restante do que ela faz; sempre que alguém entrar em nova área, ampliando horizontes, há leitores que, vítima do preconceito moderno em favor da hiper-especialização, tiram de cara uma conclusão: não pode funcionar. Ignoram que no passado, um escritor, Machado de Assis, por exemplo, atacava em todas as áreas sem qualquer complexo.
O texto de Caetano tem uma virtude: revela que os problemas são os mesmos em qualquer andar desta nobre e bela atividade. Cavacos da profissão.