Faz 20 anos da morte de Caio Fernando Abreu.
Eu nunca fui grande fã do Caio.
Ele não gostava de mim por causa da crítica que fiz a Onde andará Dulce Veiga?
Para Zero Hora, ele avisava que não queria ser entrevistado por mim.
Mas, a pedido de Luís Gomes, editor da Sulina, ajudei na publicação de Pequenas epifanias na França.
Trocamos direitos de publicação por um livro de entrevistas de Cioran com a editora Corti.
Não fiz grande coisa. Mas ajudei.
Luís Gomes e Caio Fernando Abreu fizeram uma parceria que precisaria ser reconhecida.
Quando Caio, doente, voltou para Porto Alegre, Luís Gomes o acolheu na Sulina.
Publicou Ovelhas Negras e Pequenas epifanias. Republicou Inventário do irremediável.
Postumamente saiu Teatro completo, organizado por Luiz Arthur Nunes.
Caio confiava em Luís, que ajudou a escolher os textos das Pequenas epifanias.
Caio e Luís tinham coisas em comum: a sofisticação cultural, a contracultura, certos autores.
Luís é o tipo do cara que escuta jazz de manhã, música clássica de tarde e rock de noite.
E só toma espumante.
Não necessariamente nessa ordem.
A relação editorial de Luís Gomes e Caio dá livro.
Se Luís fosse da Cia das Letras ou da Cosac Naify saíram quilos de matérias por toda parte sobre essa parceria entre um gaúcho de Santiago e outro de Alegrete, um escritor e jornalista e um filósofo e editor.
Caio foi um bom autor. Captou muito bem o espírito da sua geração.
Há qualidades, inclusive em Paulo Coelho (não estou comparando Paulo Coelho e Caio, embora, em certos aspectos, haja comparações entre Caio, Coelho, Peninha, Raul Seixas e tantos outros que, mais jovens ou mais velhos, encarnam um imaginário, uma época mais ou menos prolongada), que não podem ser negadas. Caio estava mais perto de Clarice Lispector, autora que só admirei realmente na tristíssima A hora da estrela. Fora disso, era cabeça demais para um plantador de melancias como eu.
Caio e Luís fizeram uma parte da caminhada juntos.
Mas santos de casa não fazem milagre, salvo quando reconhecidos "lá fora".
Caio hoje é referência.
Em vida, custou a receber seus troféus.
Na França, Caio e Luís seria título de livro premiado.