Juremir Machado da Silva

Caminho de Machu Picchu

Caminho de Machu Picchu

Estou generoso: aqui vai um fragmento do meu romance Solo, cuja sessão de autógrafos na promoção Biblioteca do Correio do Povo será nesta quinta-feira, 6 de maio, a partir das 18 horas, na Casa RecSul (Praça Maurício Cardoso, 7).
*
Andei em círculos, fui e voltei, estive no começo e no fim do Vale Sagrado, repisei os meus passos. Fui de Pisac a Chillca, de C’Orao a Chinchero, do tudo ao nada. Lambi o chão nas salinas de Maras. Beijei o solo em muitos terraços agrícolas. Em Urubamba, consigo que me deixem acessar a internet de graça. Consulto os meus e-mails. Só spam. Eu sou mesmo um yana. Estou excluído de tudo. Ninguém sente a minha falta. Eu sinto falta de alguém.
Graças ao Alta Vista, localizo um gráfico luminoso com o traçado do Caminho Inca. A hora está próxima.
Ao sair do cibercafé, a figura de um peruano, vestido como numa pose para uma foto souvenir, me chama a atenção. Emana uma luz intensa do sujeito. Sinto que o olhar dele me busca de um modo dissimulado. Talvez queira me vender droga. Talvez seja mais um disposto a me oferecer os serviços de meninas de 12 anos. Talvez não.
Há algo especial na maneira como suporta o sol numa esquina e me cuida com o canto dos olhos. Aos poucos, eu me convenço de que é um sinal, o sinal, de que ele está esperando para mim e que dele depende o meu futuro. Atravesso a rua sem hesitar. O homem me vê e começa a caminhar a passos rápidos. Vou atrás. De vez em quando, ele se volta para ter certeza de que não desisti.
Depois de uns 15 minutos de caminhada, ele entra num casebre. Bato palmas. Faz-se um silêncio prolongado. Insisto. Aparece uma mulher, uma mestiça gorda e triste.
“Que procura?”
“O homem que acaba de entrar”, digo, atrapalhado.
Ela faz um muxoxo antes de levantar a voz:
“Juan. Tem alguém aqui.”
O homem reaparece.
Tem os olhos profundos, negros e melancólicos. Uma luz ainda mais forte brilha no seu rosto.
“Que busca?”, me pergunta, sem emoção alguma.
“Um Anancaguayoc.”
“Quê?”
“Um Anancaguayoc.”
“Você é louco?”
Não respondo. Ele chama a mulher e comenta:
“Ele procura um Anancaguayoc, mulher.”
Riem com os seus dentes sujos. Fico envergonhado.
“Anda vendo televisão demais, homem, ou não tem os miolos no lugar?, me questiona a mulher.
“Não pode me levar a um Anancaguayoc?”
“Sei lá o que é isso, caralho.”
“Então por que me trouxe aqui?”
“Está doido mesmo, hombre? Achei você muito estranho e tratei de me afastar o mais rápido que pude.”
“Que pode fazer por mim?”
“Posso chamar a polícia.”
“Você sabe qual é a chave. Basta me dizer isso e vou embora”, eu me ouvi dizer para espanto dos meus ouvidos.
O homem riu, um risinho estridente, mofino.
Olhei para cima, para me acalmar, e vi um céu de chumbo entrecortado por finos riscos de luz.
“A chave, é isso que quer?”
“É disso que preciso.”
“I Can`t Get No”
“Como?”
Meu parco inglês, somado à sua pronúncia vagabunda, não me permitia saber se ele estava dizendo algo como, “não se pode ter sempre tudo o que se quer”, ou justamente o contrário, “você pode ser mais do que é”, ou algo do gênero, caso algum pedaço da minha tradução estivesse correto. Ele tratou de ser ainda mais claro.
“As pedras que rolam”, disse ele, apontando as montanhas ao longe, recortadas contra o céu espesso, no que pareceu um sinal de que realmente conhecia a chave.
“Não pode ser mais claro?”
Ele riu novamente, com mais força e ironia, antes de entrar no casebre e remexer em alguma coisa.
“Rolling Stones”, gritou ele, no meio de uma gargalhada, enquanto a voz de Mick Jagger, saindo certamente de um pré-colombiano vinil retumbava, para meu ridículo e estupefação, no céu de Chinchero.