Juremir Machado da Silva

Campo literário e narcisismo

Quem faz as regras do jogo?

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      Foi em 1918 que Sigmund Freud falou de uma categoria que me deslumbra e até faz pensar: “Com expressões que diferem pouco da terminologia empregada pela psicanálise, Crawley assinala que cada indivíduo se separa dos demais por um ‘taboo of personal isolation’, e que justamente em suas pequenas diferenças, não obstante sua semelhança em todo o resto, se fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles. Seria sedutor ceder a esta ideia e derivar desse ‘narcisismo das pequenas diferenças’ a hostilidade que em todos os vínculos humanos vemos batalhar com êxito contra os sentimentos solidários e degolar o mandamento de amar o próximo”. Onde não há grandes causas, a gente se estraçalha pelas pequenas. Mas, no fundo, todas as coisas são grandes: elas têm o nosso tamanho.

Pierre Bourdieu foi um dos maiores sociólogos do século XX. Não interessa se ele era francês ou não. Esse tipo de recorte não tem valor intelectual. Eu fiz o curso dele no Collège de France e fiz também uma longa entrevista com ele para a Folha de S. Paulo. Nunca fui um seguidor das suas ideias, até por minha tendência pós-moderna, mas gosto dos conceitos de “habitus”, “capital” e “campo”. O primeiro é a força introjetada que nos move; o segundo, o valor social que nos atribuem em função do que acumulamos; o último, o lugar onde atuamos.

      A definição de “campo” de Bourdieu é primorosa: “Um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças – há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes, de desigualdade, que se exercem no interior desse espaço – que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças. Cada um, no interior desse universo, empenha em sua concorrência com os outros a força (relativa) que detém e que define sua posição no campo e, em consequência, suas estratégias”. Os campos jornalístico e literário encaixam-se perfeitamente nesse quadro. Bourdieu, de resto, tem livros que tratam disso: “As regras da arte” e “Sobre a televisão”. Meu amigo Jean Baudrillard dizia que o pensamento de Bourdieu se resume a afirmar que, nesta sociedade cruel, é melhor ser jovem, bonito, rico e famoso do que velho, feio, pobre e desconhecido. Edgar Morin é menos irônico, mas não menos contundente: Bourdieu só veria a competição, não a cooperação, a colaboração, a construção coletiva. O alemão Walter Benjamin falava assim: “A mercadoria tomou o lugar da forma alegórica da intuição”. Só temos valor quando podemos ser vendidos.

      O campo literário tem dominantes e dominados que lutam por troféus (prêmios) e reconhecimento. Há deslocamento e novos atores. O campo literário brasileiro atualmente é dominado pelas editoras Cia das Letras e Todavia (um racha da primeira). Elas exercem grande poder de influência sobre as instâncias de difusão do campo como Folha de São Paulo e revista Piauí. A grande mídia de Rio de Janeiro e São Paulo funciona quase como assessoria de imprensa dessas máquinas de marketing e pressão. Essas instâncias dominantes controlam também as livrarias, especialmente os espaços nobres de exibição dos livros. Algumas editoras dominam prateleiras. Não é só a lei do mercado que funciona, mas também a indução do marcado com suas ferramentas. Se dominam as instâncias de divulgação (mídia) e de venda (livrarias), comandam também os espaços de exibição (Flip, bienais) e as instâncias de consagração (prêmio Jabuti, Oceanos). Nada disso é “natural”.

      Um prêmio não vem por simples gosto dos jurados. Há todo um sistema de lobby que cerca e condiciona resultados. De quebra, entra em ação o modo de irradiação centro-periferia, que inunda os prêmios regionais. A força da estrutura obriga mesmo quem discorda a acomodar-se para ter repercussão na sua fatia do bolo. Fica assim: Cia das Letras e Todavia publicam; Folha e Piauí repercutem generosamente; a Flip convida para mesa; o Jabuti consagra; os prêmios regionais confirmam. Mesmo o crítico literário renomado se dobra: quer publicar nos espaços de legitimação, que abrem as portas das editoras sonhadas, levam aos prêmios consagradores e solidificam reputações. Isso não quer dizer que as obras sejam ruins. Elas acontecem com a máquina.

      As editoras periféricas não podem concorrer com a Todavia, cujo sócio principal é o herdeiro do Itaú. A literatura marginal, para usar um termo antigo, flui pelos canais centrais. É o sudestino que manda e fatura explorando os nichos em alta. Não é a forma mais tradicional de apropriação cultural? Bom negócio para as partes envolvidas. O autor “dominado” vira “dominante” a partir do seu talento. Mas não o faz pela sem se submeter aos tradicionais donos do capital, que ficam com a parte principal do arrecadado. Como sugere Bourdieu, cada um, conforme a sua posição no tabuleiro, estabelece as estratégias que possam fazê-lo mover-se dentro do campo. Quase não se vence num campo sem estabelecer relações, vínculos, reciprocidades.

      Claro que os instrumentos de consagração são mais amplos. Além da Folha de São Paulo e da Piauí, é possível citar Estadão, Veja, programa do Bial e outros. O eixo principal, porém, para o sucesso, hoje, é este: Cia das Letras/Todavia – Folha de S. Paulo/Piauí – Flip – Jabuti – prêmios regionais, feiras locais. A vendagem poderá ser maior ou menor. A afirmação dentro do campo estará garantida. Existe a chamada mídia espontânea, a crítica não encomendada, obviamente. Só que isso costuma coincidir com o estímulo inicial operado pelo motor inicial da engrenagem. O crime é perfeito. Qualquer crítica será vista como ressentimento. Qualquer premiação fora da caixa não terá repercussão e será vista como “panelinha”. O campo jornalístico não funciona de outro modo. O capital vai ao capital. Tudo se acumula. Quem avalia mal a sua força relativa pode ser retirado do jogo.

      Como disse Guy Debord, “o espetáculo não diz nada além de o que é bom aparece, o que aparece é bom”. Não há livros bons nem livros ruins. Há livros dos quais alguém gosta. Um dia livros de pequenas editoras ganharão grandes espaços de mídia e os maiores prêmios. O livro numa pequena editora é ruim ou se torna ruim por não ter a grande máquina por trás dele? A estrutura sempre vence. É a lei. Vence mais facilmente ainda quando o protagonista, em princípio, pelo seu talento, não precisaria dela. A estrutura só ama os grandes.
Que em 2021, ou 3021, a arte tenha o mesmo valor em qualquer lugar  ou sob qualquer selo. Que o lugar do pensamento crítico e livre não se submeta à lógica das marcas. Nesse dia utópico, citaremos Benjamin: “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado”. Nada mais será pequeno.