Juremir Machado da Silva

Campo versus cidade

Campo versus cidade

Há 40 anos, o agricultor brasileiro utilizava o plantio convencional, lavrando a terra e assim, poluía os rios com terra e fertilizantes, através da erosão causada pela gota da chuva que caia diretamente na superfície do solo. Usava muitos herbicidas, pois a terra estava exposta ao sol e isto favorecia a germinação de sementes dos inços. Inseticidas eram pouco eficazes, obrigando à aplicações exageradas, contaminando os alimentos.
Neste meio tempo, a população urbana fazia sua parte, produzindo e vendendo os defensivos para o campo, consumindo água, energia fóssil e alimento. Para os rios e mares, mandava resíduos urbanos nem um pouco ecológicos (cinzas, urina, fezes; solventes e tintas das indústrias ) tudo isso contaminava e imobilizava todo oxigênio da água para decompor estes dejetos, matando peixes e todo e qualquer bicho aquático. Pelo ar, eram emitidas, cada vez maior quantidade de gases de efeito estufa, contendo moléculas de carbono, que esteve ,sagradamente, guardado no subsolo pela natureza, por milhões de anos, mas procurado, cada vez com mais voracidade, pelo homem. Por terra, plásticos, papel, metais, pilhas eram jogados em lixões para que algum ser vivo o decompusesse ou morresse. “Problema de governo” diziam os urbanos para tentar desculpar tudo o que faziam.
Passaram-se vários anos, a cidade continuou fazendo o mesmo massacre com os rios, ar e solos, só que em quantidade muito, mas muito maior. Mais gente gostando de morar na cidade, consumindo energia e alimentos.
Atualmente, os agricultores brasileiros adotaram a tecnologia do plantio direto em 70 % da produção de soja e milho (enquanto no resto do mundo é de 5%). Deste modo, reduziram em 90% a erosão, usam defensivos menos poluentes e com menor dano aos inimigos naturais. O Plantio Direto diminui o consumo de diesel, deixando de colocar no ar 50% do CO² que emitiria. A grossa camada de palha deixada sob a superfície do solo, o protege do sol e da chuva aumentando sua fertilidade. E, o que antes com 800 milímetros de chuva produzia 1.200 kg/ha de soja (1,5 kg/mm), agora produz até 5.000 kg/ha (6,25 kg/mm). É tanta produção de grãos que serve para formar a maior parte do saldo da balança comercial brasileira, permitindo que os urbanos brasileiros comprem itens chineses. A China não quer bens industrializados brasileiros, mas sim os alimentos produzidos pela, cada vez menor e discriminada, população rural brasileira. O agricultor planta porque a cidade compra, não a obriga a consumir, não planta só por simples prazer, embora o tenha. Portanto, o desmatamento atendeu a uma demanda da cidade. A cidade culpa o campo pela poluição dos rios, mas se forem ver como nós os enviamos para as cidades e como a cidade os deixa, se impressionariam com a diferença. Os rios estão cada vez mais poluidos, os peixes do rio Caí morrem por que? As cidades não só poluem os rios, os matam. Enquanto o campo fez sua parte, o que a cidade fez? Diminuiu o consumo fóssil? Tratou de forma substancial seus esgotos? Diminuiu seu lixo tóxico? Nós, reduzindo a erosão do solo, trocamos a cor vermelha da água das Cataratas do Iguaçu pela sua transparência. O desastre ambiental provocado pela enlouquecida demanda das cidades deveria ter punição. Quem demanda a madeira da Amazônia? Quem gasta os dólares gerados pelo agrobusiness? O campo ou a cidade? Nós, produtores rurais, sob o sistema de plantio direto, fizemos nossa parte, uma revolução ecológica. E a cidade o que fez? Apenas leis contra nós, além de aumentar suas atrocidades ambientais contra o planeta. Os maiores poluidores culpam o campo. Mas, afinal, quem é o maior culpado?


Eng. Agrº. Gerson Diefenthaeler Herter
Produtor em Lavras do Sul, RS
Presidente da Associação de Plantio Direto da Metade Sul do RS
aplandisul@gmail.com