Juremir Machado da Silva

Cantar hino em jogo de futebol

Cantar hino em jogo de futebol

Hinos no futebol


A parte mais chata de um jogo de futebol é a hora dos hinos. No Rio Grande do Sul, a chatice é dobrada. Além do hino nacional, temos de ouvir o hino dos gaudérios, propagando aquela fanfarronice das nossas façanhas como modelo universal. Os times raramente correspondem aos delírios do Chiquinho da Vovó. Hino em jogo de futebol só se for o dos clubes. Ou alguma versão em ritmo de funk ou de pagode. É misturar alhos com bugalhos e civismo de ditadura com lazer e entretenimento. Já passamos da época dos “90 milhões em ação”, quando o ditador gaúcho Emílio Médici acampava em Brasília e mandava prender e torturar. O tempo das disciplinas de Moral e Cívica e Estudos dos Problemas Brasileiros também já acabou, salvo nos estádios de futebol, onde jogadores e público ainda sofrem tortura.
A maioria dos jogadores mal sabe o hino nacional. Em cada clube, há atletas de vários Estados e até de outras nacionalidades. Os estrangeiros fazem cara de paisagem enquanto as nossas torcidas de bombacha se esgoelam em tom de bairrismo anacrônico. Quando será que vamos nos livrar desse complexo de inferioridade? Ainda bem que a maioria dos Estados brasileiros não dá a menor importância para os seus hinos. Ou teríamos de suportar os hinos de Rio de Janeiro e São Paulo duas vezes por semana na televisão. A CBF é uma ditadura disfarçada. A Fifa é uma ditadura declarada. A antiga CBD andava fardada. Deve ser daí que vem esse apreço por hinos em momentos impróprios, quando as pessoas só querem se divertir. Até ouvir Luan Santana é melhor do que hino.
Encontrei muitas formas para me livrar da tortura dos hinos. Ligo a televisão um minuto depois do horário do começo dos jogos. Já perdi gol por causa disso. Na era Falcão, contudo, não parece haver muito risco. Depois de ler um ensaio do norte-americano Mark Dery sobre o dedão da Madonna, passei, quando não escapo dos hinos, a pensar em fetiches: o narizinho da Angelina Jolie, o narizinho da Ana Paulo Arósio, o dedinho do pé da Cleo Pires. É, pelo jeito, sou fixado em narizinho arrebitado. Como vejo uns quatro jogos por semana, já tive tempo de desenvolver grandes teses sobre narizinhos. Fiz uma detalhada comparação entre o nariz da Angelina e o da Ana Paula. Outra possibilidade é tapar os ouvidos. Tortura mesmo é quando uma cantora, estilo Vanusa ou Fafá de Belém, é escalada para interpretar o hino nacional. Pior ainda só um gaudério choramingando a nossa louvação farroupilha.
Pensei em me queixar ao Procom. É uma questão de direito do consumidor. Se quero ver um jogo de futebol, tenho o direito de não sofrer lavagem cerebral. Em Copa do Mundo, quando países se enfrentam, até dá para tolerar, pois ficamos mais nacionalistas e, afinal de contas, isso só acontece de quatro em quatro anos. Acho que esqueceram de avisar a CBF de que a ditadura acabou ainda no século XX. Hino em jogo de futebol rima com “Voz do Brasil”. Pode existir algo mais intragável? Pode. As explicações dos treinadores para as derrotas vexatórias.