O tráfico de escravos foi uma operação capitalista. Yuval Noah Harari, em “Sapiens, uma breve história da humanidade” (L&PM), crava: “O comércio de escravos não era controlado por nenhum Estado ou governo. Foi uma iniciativa puramente econômica, organizada e financiada pelo livre mercado de acordo com as leis da oferta e da demanda. As empresas privadas de comércio de escravos vendiam ações nas bolsas de valores de Amsterdã, Londres e Paris. Europeus de classe média à procura de um bom investimento compravam essas ações”. No século XVI, a taxa de retorno dessas ações infames era de 6% ao ano. Um belo negócio para quem não se perdia em dilemas éticos.
O racismo não foi a causa, mas a consequência disso, segundo Harari: “O capitalismo matou milhões por pura indiferença unida à ganância. O comércio de escravos no Atlântico não derivou de ódio racista para com os africanos. Os indivíduos que compravam as ações, os corretores que as venderam e os administradores das empresas de comércio de escravos raramente pensavam nos africanos. O mesmo pode ser dito dos proprietários de plantações de açúcar: muitos deles viviam longe das plantações e a única informação que exigiam eram livros contábeis com registros precisos de lucros e perdas”. A “banalidade do mal” nazista foi precedida pela banalidade da ganância capitalista, que inventou o racismo contra os africanos para legitimar e naturalizar o comércio que ceifou milhões de vida. Era só um bom negócio com carne humana encontrada com fartura na África.
Harari destaca que o mesmo foi feito pela Companhia das Índias Orientais, que levou à fome dez milhões de bengaleses: “As campanhas militares da VOC na Indonésia eram financiadas por burgueses holandeses honestos que amavam seus filhos, faziam doações de caridade e apreciavam boa música e boa arte, mas não tinham consideração alguma pelo sofrimento dos habitantes de Java, Sumatra e Malaca. Inúmeros outros crimes e contravenções acompanharam o crescimento da economia moderna em outras partes do mundo”. No século XIX, a ciência capitalista inventou teorias raciais para tentar justificar o direito dos brancos de dominar os negros. Não colou. Mas provocou enormes estragos cujos efeitos ainda se fazem sentir.
A história da acumulação primitiva do capitalismo é a verdadeira história universal da infâmia. Os mais otimistas, ou cínicos, garantem que esse foi o preço pago pela liberdade atual. Só a ironia de Harari serve de contraveneno: “Já a maioria das pessoas hoje consegue viver de acordo com o ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o paraíso sob a condição que os ricos continuem gananciosos e dediquem seu tempo a ganhar mais dinheiro, e as massas deem rédea solta a seus desejos de paixões – e comprem cada vez mais. Essa é a primeira religião na história cujos seguidores realmente fazem o que se espera que façam. Mas como temos certeza de que, em troca, teremos o paraíso? Nós vimos na televisão”. É simples assim.
O passado dessa mercadoria altamente rentável que foi o negro ainda pode ser reciclado em filmes de Hollywood.
O lucro é alto.