Juremir Machado da Silva

Carnaval na telinha do tédio

Momo envergonhado

Já diz a sabedoria popular: mais chato do que carnaval na tevê. É aquele sonzinho no fundo, apresentadores e comentaristas dizendo obviedades decoradas com esmero e aquele bolinho de gente na tela pulando como se a imagem estivesse pulsando por defeito na transmissão. Quando a câmera aproxima, a figura de uma gostosa anônima ou famosa dá um sabor especial, mas nada que quebre definitivamente o tédio. Carnaval é imersão. Se não está bem dentro, está definitivamente de fora.

Por causa da sagrada novela e do BBB1500 (nunca vai terminar esse negócio de um bando de marmanjos atirados só de cueca ou calção, coçando os testículos e tentando pegar um bando de gurias atiradas na sala, no quarto ou na beira da piscina só de biquíni ou calcinha?), a Globo, dona da transmissão, botou o carnaval no ar depois das onze da noite. É como um jogo de futebol em que a televisão não se interessa em mostrar o primeiro tempo. A bem da verdade, fundamental no assunto, nada se perde.

O carnaval de Recife recebe atenção especial para o Nordeste. O repórter Francisco José cobre a folia, com o mesmo texto em duas dúzias de boletins noturnos, desde a época em que Lampião ainda incendiava o sertão alagoano com suas aventuras e irradiava sua perspectiva carnavalesca revolucionária para os Estados vizinhos. O resultado é emocionante. O telespectador despenca no sono bem antes de o “Homem da meia-noite” sair para a rua e quando o “Galo da madrugada” ainda nem desceu do poleiro.

Já o carnaval da Band, direto de Salvador, é sempre a festa particular da Ivete Sangalo e da Daniela Mercury. Tem tempo, no meio do jogo, quer dizer, da festa, para longas entrevistas, sempre com as donas da casa e alguns dos seus convidados, entrega de troféu e diploma de melhor cantora, discursos de agradecimento, fotos com a família, beijos para a vovó, apresentação do novo cachorro e pausa para ir ao banheiro ou para retocar a maquilagem. A baiana Cláudia Leite, depois de ter brilhado como Galinha Pintadinha na Copa do Mundo, foi ser personagem do Pokemon no carnaval do Rio de Janeiro.

Não deixa de ser carnavalesco que uma escola carioca entre para ganhar com um enredo sobre a Suíça, país que, como cultura e alegria, é quase tão trepidante quanto uma transmissão de carnaval na tevê. O mais impressionante foi o choque do presidente da Unidos da Tijuca com o carro da Mocidade Independente, criado por Paulo Barros, ex-carnavalesco da Tijuca, simulando cenas de sexo. Que horror! Sexo no carnaval! Um motel na avenida! Que indecência. Carnaval tem moral: não aceita simulação.

Carnaval é bom demais. A tevê é que não consegue captar a sua efervescência. Imagino que seja uma praga do Momo: quem fica em casa, vendo carnaval na tevê, tem mais é que se entediar. Nunca se viu tanto silicone desfilando. Teve uma moça, destaque numa escola qualquer, que só não tinha silicone nos olhos. Numa parte do corpo, as placas de silicone moviam-se, como placas tectônicas, com o impacto do samba no pé provocando inacreditáveis deslocamentos de nádegas e de continentes. Uma loucura.