Juremir Machado da Silva

Carta aberta ao escritor Juremir Machado da Silva

Carta aberta ao escritor Juremir Machado da Silva

Carta aberta ao escritor Juremir Machado

OBS: espero que todos tenham a curiosidade de descobri-lo.

Caro Juremir Machado,
Sou um anônimo que acompanho a tua trajetória desde há muito, desde o tempo em que fostes para a França em busca de MM.

Não tive o mesmo talento e fui formando minha pseudo intelectualidade por aqui. Descobri MH (Plataforma, Partículas Elementares, etc), Le Clézio e outros (des)encantados por acaso, pois já me sentia perdido em relação aos clássicos, pois ao contrário de Ítalo Calvino, estão clássicos porque ficam ali mesmo, no passado, apenas como referência, abandonados e serviçais de um saber muitas vezes esnobe, para tristeza disso que conhecemos como história da literatura.

Se os clássicos não são mais tão prazerosos quanto eram no tempo da vaidade, eu pouco me vejo seduzido por vampiros e bruxos, nesta literatura-self que não sei bem qual é a polaridade do efeito, se positivo (quando vejo em pré-estréias jovens e crianças vestidas com as roupas dos livros-filmes, tenho um sentimento de derrota, não sei bem o porquê), ou negativo, já que não me parece que tal literatura, em sua grande maioria, carrega alguma qualidade sobrevivente.

Descobrir a tua trilogia na 56º feira do livro, marcada pelo absurdo do trágico fato de autoritarismo contra uma escritora, seja lá de qual qualidade, mas ainda, assim uma ‘artista’, foi uma redenção.

Espero que não me entenda como fã, pois não pretendo ser fã de mais ninguém nesta altura da minha vida, uma vez que já superei a paixão de buscar nos outros aquilo que não consigo encontrar em mim.

A surpresa está no fato de poder ter reencontrado o prazer da leitura que muito me (des)agrada, é uma surpresa graciosa.

O que me doeu foi saber o preço ao qual veio a ser vendido, pois a ignorância e o preconceito típicos deste submundo intelectual ao qual nos acostumamos a ouvir citações e críticas pseudo-desinteressadas, obrigaram um autor a buscar oferecer uma obra de qualidade por um preço vil, mas talvez, única estratégia possível para que os intelectuais de plantão e os modistas de último momento pudessem se interessar por algo que realmente tenha valor.

É curioso como os arrogantes que até para falar caricaturizam os gestos, a boca e a voz, precisem se sentir levando vantagem como qualquer consumidor que busca pechinchar para comprar peixe, pão ou qualquer outra bobagem.

Não me desagradam os termos e a busca por uma visão iconoclasta, nem mesmo a reconstrução ontológica e crítica de um niilismo sem ser niilista, ainda que em alguns momentos, felizmente, existo e penso por mim, o que me leva a não concordar com o amigo.
Mas eis aí o grande prazer: o (des)conforto, a provocação, a (des)construção e a coragem de abenergar-se, ao qual desde um intelectual perdido entre o verbo e o mercado, como Pasolini, eu ainda não tinha tido o prazer de redescobrir.

Desde Teorema do Caos, passando por Jovens Infelizes, mas Amado Meu, não sentia um gosto escroto e saboroso em minha boca, provocando-me ao deleite na aspereza, na ausência de uma estética educada e tão previsível ao qual a literatura se viu reduzida e sodomizada, bem ao gosto do consumidor pseudo-conhecedor.

Faltou-me coragem para tentar sair do país, na mesma medida em que me faltaram padrinhos, dinheiro e inteligência, assim, fiquei anestesiado, cursando minhas graduações e meus mestrados com o mesmo prazer desta subcultura nada inteligente ou surpreendente.

Ouvi Heidegger, Habermas, Foucault, Sartre, Kant, Marx e tantos outros que encantam aos ingênuos e fracos de espírito, com o mesmo grau de idiotice pela ‘genialidade’ de quem freqüenta o banheiro com os mesmos odores que qualquer ‘simples mortal’, mas lentamente, me deixei resgatar pela experiência, mais do que pela vaidade e miséria do conhecimento e, desta forma, passei a vê-los pelo que são: gente, interessante e desagradável, como todos os outros.

Sempre justifiquei o fato de ainda não ter feito o doutorado como típica revolta e irreverência, formas mais brandas para denominar minha covardia e, assim, esquecer o meu intento de invejar, criticar e buscar desmoralizar(me) frente aos que tiveram tal ímpeto.

Mas obrigado pela leitura de tua (nossa) obra, já que como leitor, me dou o direito de invadir o teu território literário e me adonar de teus personagens, fracassados, frustrados, pretensiosos, cínicos, mas sedutores e, basta conviver alguns anos na academia, todos encontráveis ali, ainda mais nesta nossa província, o que me permitiu saborear esta imagem que construístes.

Parabéns! Mesmo não concordando com muita coisa, penso que aceitarás minha (in)satisfação como um elogio, pois me sinto vivo por poder ser provocado, por poder pensar e por poder não gostar daquilo que me dá um misto de prazer/horror/gozo, aliás, como todo prazer intelectual.
Um grande abraço!
Antonio Pacheco