Carta de professora ao governador Tarso Genro
Caro Juremir!
Abaixo segue cópia de uma carta que enviei ao Governador. Me sinto no dever de fazê-lo já que faço referência a tua coluna, lá no final da carta. Penso ser importante saberes a influência que tens na nossa vida.
Tenho pouca esperança que essa carta chegue realmente ao Governador, mas me nego a trabalhar com essa lógica, sob pena de "jogar a toalha" e facilitar cada vez mais para o lado dos "mal intencionados". Me consola saber que estou tentando.
Não é a primeira vez que te escrevo e aproveito para reforçar que me emociono frequentemente com a tua coluna, especialmente quando se refere ao magistério, já que tu és uma das poucas vozes que ainda se levanta a nosso favor. Fora disso, é total solidão!
Muito grata, Juremir!
Agora, enquanto estou te escrevendo, recebí um telefonema de uma amiga perguntando se já li tua coluna, sob o título de "Piso e teto". Respondo, angustiada, que meu Correio ainda não chegou. Ela afirma que vou adorar. Sendo assim, fico por aqui, porque não vou esperar o entregador, vou até a banca mais próxima.
Um grande abraço!
Ana Gabriel
Buscando compreender o incompreensível
Sr. Governador do RGSul, Tarso Genro.
Sou professora estadual e isto já é qualificação suficiente para lhe pedir que leia até o fim. Por favor, não encarregue nenhum assessor para tanto. Portanto, Sr. Assessor, repasse ao destinatário.
É quase uma questão de saúde.
Desde que o senhor começou a ensaiar um discurso conhecido sobre a situação precária do Estado, desde então, Sr. Governador, tenho sido acompanhada por um sentimento de absoluto descrédito, desesperança, quase como se, definitivamente, não houvesse mais saída.
Preciso muito que o Sr. me ajude a compreender algumas questões.
No início de seu governo, já nos primeiros dias de janeiro, li e acompanhei nos veículos de comunicação a sua preocupação em reajustar o salário dos coordenadores da administração do Estado, alegando, lembro bem, que isso qualificaria melhor os serviços públicos, já que atrairia profissionais mais capacitados. Eles ganhavam em torno de R$1.600,00 e passariam a ganhar algo como R$4.300,00. Fiquei entusiasmada com a sua lógica, pensando no quanto a sua visão das coisas se parecia com a minha. Pensei ainda que essa urgência toda poderia estar ligada a preocupação de que este pessoal se visse animado a fazer melhor o seu trabalho e pudesse fiscalizar com seriedade essa doença chamada corrupção. Imaginei que a suposta (por mim) fiscalização poderia impedir a corrupção nos serviços públicos e res ultaria, com muita folga, em recursos para pagar o piso do magistério. Aliás, esse é o trabalho do Tribunal de Contas, cujos funcionários ganham salários bem dignos. Dito isso, não cabe mais nenhum comentário.
Falando em corrupção, as notícias a partir do último domingo, dia 13 de março, são desalentadoras e devem ter ocupado sua agenda já que o nome do nosso Estado constou o maior número de vezes. Que vergonha! Imagino que o Sr deve concordar que se não houver uma ferrenha fiscalização, a festa desses criminosos vai continuar. É ingenuidade, falta de vontade ou conivência pensar o contrário.
Mas voltemos ao início, quando eu ainda estava entusiasmada. Ora, meu contentamento tinha sentido, na medida que o Sr. afirmava que melhor salário capacitava melhor as pessoas. Logicamente pensei: eu sabia, afinal minhas qualificações serão valorizadas! Porque saiba o Sr., não sou apenas qualificada formalmente, que isto apenas não basta, sou excelente professora. Sendo assim, não lhe pareceria coerente minha linha de raciocínio? O Sr. é um homem inteligente e sabe bem onde quero chegar. Onde está a linha que separa a qualificação e atrativos para os coordenadores e a dos profissionais da educação? Por que os outros cargos públicos como médicos, engenheiros, advogados recebem salários tão distantes dos nossos? Não temos o mesmo nível de formação? Por que não interessa atrair gente capacitada (a maioria já o é) para o magistério? Essa atitude, em outras palavras, não significa pouco caso com a educação? Não lhe parece um questionamento sensato? Ah, certamente sua equipe lhe dirá, como tenho assistido na mídia, o número de professores é grande e qualquer aumento “quebrará” o Estado. Isso é tão clichê, Sr. Governador! Há décadas ouço isso e não impediu a tamanha dívida que o Estado apresenta. Então, onde está minha responsabilidade nisso?
Uma outra pergunta: e os senhores deputados que indecentemente aumentaram os seus salários em 70%, onde ficou a preocupação com a situação do Estado? Por que eu, com o meu mísero salário serei responsável pela situação vergonhosa do Rio Grande do Sul? Os mais apressados, e talvez nem tão bem intencionados, utilizarão a desculpa de que a receita do legislativo e o executivo são separadas, mas me ajude a compreender, ambas não tem origem na arrecadação de impostos pagos por todos nós? E nem falamos dos salários do judiciário. Nada contra ser bem remunerado, mas por que o magistério tem que carregar o estigma de que um salário digno leva o Estado à bancarrota? O Sr. percebe a incoerência da coisa?
Uma outra questão que não consigo compreender são os precatórios, cujo montante maior fica por conta dos processos movidos pelos membros magistério, praticamente obrigado a lançar mão desse expediente já que o governo Britto nos “concedeu” um aumento, mas não pagou. Então, o Estado ficou com valores que nos eram devidos (isso tem nome) e foi preciso “engrossar” para ter nosso direito assegurado. Mesmo assim, muitos de nós abriu mão de uma parte do que nos era devido, de modo a poder receber ainda em vida, tal a morosidade praticada quando se trata de nossos direitos. Mas eis que agora recebo notícias que me deixam estupefata: que o seu governo defende a flexibilização (aqui a palavra pode significar calote) no pagamento das Requisições de Pequeno Valor (RPVs), ou seja, não nos pagar nessa vida. Ora, o Sr. nos deu tantas boas notícias durante a sua campanha, e agora, no seu governo de fato, quando receberemos a primeira que nos deixe respirar?
Me permita esclarecer: logo acima afirmei saber que finalmente seria valorizada. Pois saiba o Sr. que teve um dos cabos eleitorais mais eloquentes durante a última eleição. Eu não tinha nenhuma dúvida que conversaria seriamente com o magistério e convenci muitos de meus pares a votar no Sr. Afinal, era tão lógico que caso se elegesse não hesitaria em aplicar uma lei na qual o senhor foi peça importante. Aliás, pela veemência da sua defesa, quase podemos dizer que a ideia foi sua! O Sr. consegue imaginar a minha surpresa quando lhe vejo vacilar diante do que seria o inequívoco? E mais surpreendente ainda é lembrar que os parlamentares, principalmente, do Partido dos Trabalhadores alegaram apenas falta de vontade polí tica quando o governo Yeda praticou o absurdo de utilizar a justiça (Adin) para impedir o cumprimento da lei federal. E o que é agora, Sr. Governador?
Aliás, Juremir Machado da Silva, que o Sr. deve conhecer muito bem, escreveu no dia 10 de março último em sua coluna (se não leu, busque fazê-lo) que o Sr. não pode conviver com esta contradição (eu diria contrassenso), ou seja, ter concebido uma lei que muitos aplicam e o Rio Grande do Sul, onde o Sr. é o dirigente maior, não.
O senhor mesmo previu ajuda federal para os estados que não pudessem cumprir a lei do piso, conforme lembra bem o Juremir. E agora, o que houve com as suas convicções? O que lhe enfraqueceu a vontade? Me ajude a compreender, mas, por favor, não me fale da situação do Estado, porque disso já ouvi todos os outros dizerem.
Ana Gabriel
Professora pública do Estado do Rio Grande do Sul