Juremir Machado da Silva

Carta sobre o SUS

Carta sobre o SUS

Mesmo com atraso, vale pensar sobre esta carta.
Prezado Juremir:
Sei que, no quotidiano, não tens tratado das questões relacionadas com a Saúde Pública e suas mazelas. Ocorre que na próxima sexta-feira (dia 06), deverá estar em Porto Alegre uma representação daquilo que o Conselho Nacional de Saúde e outras entidades da área, covencionaram denominar de Caravana em Defesa do SUS.
O Tema Central dessa Caravana é "Todos em defesa do SUS". A luta por um sistema público de saúde, que alcançe todos os brasileiros é uma responsabilidade constitucional do Estado brasileiro. É óbvio que nenhum governo até o momento, sequer passou por perto do cumprimento do que está previsto na Constituição Federal. O Sistema, que deveria ser público/estatal (da mesma forma que no Canadá, na Inglaterra e em outros países desenvolvidos) manteve-se essencialmente privado (o Estado adota uma política curiosa, para não dizer trágica: primeiro concede filantropia, cria políticas de incentivos e subsídios de todos os tipos, doa seus próprios para uso de terceiros e depois compra os serviços do setor privado, a preços de mercado, como se fosse uma relação normal, desconsiderando todas as benesses previamente concedidas). E os filantrópicos (que alguns teimam, maldosamente em chamar de pilantrópicos) vivem chorando lágrimas de crocodilo, reclamando de como são maltratados pelo papai Estado.
E agora teremos a Caravana em defesa do SUS (que está visitando o Brasil inteiro) com esse Tema Central prá lá de estapafúrdio: "Todos em Defesa do SUS".
Deve ser brincadeira. Pode alguém, de sã consciência, que some dois com dois, imaginar que os empresários que "investem na saúde" defendem um Sistema Público de Saúde, universal, democrático, integral e que trate todos os cidadãos igualmente, sem discriminação? Alguém tem que explicar as duplas portas de entrada dos hospitais "contratados" pelo SUS, e o tratamento discriminatório aos pacentes do SUS em relação aos segurados de Planos Privados nestes mesmos hospitais. Seria melhor se o slogan fosse "todos os trabalhadores urbanos e rurais, todos os setores médios da sociedade, todos os desempregados, enfim todos os 80% da população que vive de salário e que depende de um sistema que deveria ser público/estatal e executado diretamente pelo Estado, sem intermediários".
Assim como está, misturando "todos" num mesmo balaio, só quem sai ganhando são os donos do pedaço. E a população continuará abandonada e sem acesso a um sistema minimanente digno e de qualidade.
Fico grato pela tua atenção
um abraço
Lucio Barcelos
Médico Sanitarista