Juremir Machado da Silva

Censura, ditadores e aviões

Reprimir jornalistas em qualquer altura

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      É sabido que ditadores gostam de se eternizar no poder, ao qual eles costumam chegar em nome de alguma causa dita justa. É conhecido também o pavor que os ditadores têm da liberdade de expressão. Nada horroriza mais os autoritários do que uma imprensa determinada a fiscalizar os seus atos. A história universal da censura é riquíssima em atos infames de perseguição a jornalistas. Parecia impossível encontrar um meio original de capturar um adversário e submetê-lo às humilhações de rigor. O ditador de Belarus, o inoxidável Alexander Lukashenko, mandou descer um avião para prender o jornalista Roman Protasevich, seu algoz com as armas do verbo.

      A história da infâmia, porém, não costuma primar pelo ineditismo. Outras quatro vezes aviões foram obrigados a descer por razões políticas. Em 2013, o avião que transporta o boliviano Evo Morales fez pouso em Viena por não ter como aterrissar em outros países. Um boato dizia que Edward Snowden, o homem que divulgou segredos de poderosos, estava a bordo. Em 2010, o voo com um rebelde sunita pousou para que o Irã prendesse o inimigo. As democracias também obrigam aviões a arrepiar carreira. Em 1985, um avião egípcio foi barrado por americanos por supostamente transportar terroristas palestinos. O caso mais antigo aconteceu em 1956 com um voo levando cinco líderes independentistas argelinos para o Marrocos. Esse retrospecto diz pouco sobre essa velha tentação.

      Lukashenko caprichou nas mentiras padronizadas: não sabia que o jornalista estava a bordo, haveria uma real possibilidade de uma bomba estar embarcada, só agiu em nome da preservação da vida de passageiros e tripulantes, etc. Eleito em 1994, o homem logo aprendeu a manipular constituições, a ampliar os limites das suas reeleições e fraudar resultados. Um protocolo que encanta, conforme os lugares, direita e esquerda. A democracia, com sua mania de alternância no poder, incomoda muita gente. Até o malfadado Donald Trump tentou melar o resultado das urnas. Não faltou gente por aí para gostar da ideia. A liberdade de crítica chateia os donos do poder. Criticar significa por em crise, abalar fundamentos, provocar abalos, derreter convicções, duvidar dos poderosos.

      O avião pousou. Bomba não havia. O jornalista abelhudo foi preso. O ditador gostou da notícia. Enquanto isso, na Coreia do Norte, os costumes ocidentais são banidos. Entre eles, cabelo comprido, piercing, mostrar o umbigo e usar sunga. Sem dúvida, sunga revela um comportamento decadente. Mostrar o umbigo me parece mais duvidoso, talvez até revolucionário. Meu cabelo tem crescido. Não corto desde agosto. Ainda bem que não pego avião. O voo poderia ser interrompido para que me capturassem. Num ato de coragem impensável, eu mostraria o umbigo ou ficaria só de sunga. A pena para tal crime pode ser a prisão perpétua ou até a execução. Lukashenko causa inveja a muita gente. Imagina poder mandar um avião interromper um voo para ter o prazer de silenciar um jornalista! Belarus faz história. Apesar de não ser inédito, o golpe de Lukashenko poderá encontrar seguidores.