O guerreiro do imaginário

Principal escritor da Martinica, ganhador do prestigioso prêmio Goncourt, considerado como o Nobel francês, com o romance Texaco, em 1992, Patrick Chamoiseau é o narrador dos sonhos e das misérias dos escravos e seus descendentes na sua ilha caribenha. Artista e teórico da “crioulidade”, ele se multiplica com um homem de ideias e de utopias. Convidado pela Feira do Livro de Porto Alegre, ficou três dias na capital gaúcha em busca dos negros do lugar e da sua cultura. Nesta entrevista ao Caderno de Sábado ele define o papel do escritor.
Caderno de Sábado – A sua literatura sempre se ocupou dos pequenos deste mundo. Ainda há espaço para este tipo de literatura?
Patrick Chamoiseau – Nossa época é a do triunfo total do capitalismo. As riquezas absurdas se acumulam nas mãos de poucos. A miséria de alastra. A cultura se afunda. A pobreza mental se dissemina. A eleição de Donaldo Trump e a ascensão da extrema-direita mostram isso. Venho de uma família muito pobre. Minha mãe não sabia a cada dia se teríamos o que comer, mas me transmitiu valores de solidariedade. Tenho a impressão de que isso está sendo perdido. A literatura precisa revelar as forças subterrâneas que movem o mundo. As pessoas acham que estão vivendo um tempo de paz na medida em que não há guerra mundial e há progresso tecnológico. A verdade é que uma nova barbárie ardilosa avança em nome do consumismo e do lucro desenfreado. A literatura precisa revelar todas essas contradições. O escritor está só. Cabe-lhe enfrentar o senso comum para mostrar o lado hediondo de uma sociedade da mercadoria e do dinheiro. Por trás dessa engrenagem novas solidariedades e sensibilidades se articulam.
CS – Há uma precarização da vida?
Chamoiseau – Sem dúvida. Temos um duplo movimento: mais possibilidades de riqueza e conforto e mais insegurança e precariedade. As forças do capitalismo sem controle desnaturam o ser humano transformando-o em mera ferramenta de produção. Aos poucos, cada homem perde a noção de ética e a força para tentar mudar a sua vida. Sem esperança, tudo se torna insuportável. À arte cabe despertar os indivíduos para uma leitura do mundo em que eles vivem. Em cada lugar as pessoas vivem experiências singulares. O artista capta essas experiência e ajuda cada um a se ver como um sujeito.
CS – Ainda é possível disseminar no mundo uma literatura “crioula” de acordo com a categoria que tem dado suporte aos seus textos?
Chamoiseau – A ideia de “crioulidade” surgiu a partir da análise da vida das pessoas no Caribe, mas vale para toda a América. É o resultado do genocídio dos povos indígenas e da sua substituição por escravos africanos em fusão com os europeus. Surgiu uma cultura de mestiçagem marcada pela diversidade antropológica. Cada país tem a sua “crioulidade”. O Brasil tem a sua. Somos o resultado de culturas de cruzamento. Tudo se interliga. O capitalismo se estendeu pela totalidade do mundo. Precisamos enxergar a vida nessa perspectiva. Os lugares se tocam, os seres se tocam, tudo parece próximo, mas distância simbólicas são mantidas. A globalização transformou todos em consumidores. Na luta contra isso muitas portas e janelas têm sido fechadas. Os problemas maiores de hoje dessa ordem. Por exemplo, os fluxos migratórios. A globalização é uma coisa. A mundialização é outra. A primeira segue o interesse econômico. A outra, por caminhos paralelos, é feita de encontros alternativos de sensibilidades. Não devemos recusar a globalização, mas humanizá-la e transformá-la.
CS – A literatura desempenha algum papel nessa transformação?
Chamoiseau – Claro, pois a literatura mexe com o sistema de representação das pessoas. Somos formados pelo capitalismo, que nos separa em competidores. A única força capaz de agir sobre o imaginário e de alterar esse sistema de representação é a arte. Nesse sentido, a literatura tem um papel determinante a cumprir atualmente.
CS – Texaco, romance sobre os miseráveis de uma favela da capital da Martinica, seria recebido hoje da mesma maneira que em 1992?
Chamoiseau – Seria quase o mesmo. A recepção se alteraria um pouco no sentido de que as pessoas hoje estão, como conto em Texaco, diante das imagens de enormes problemas sociais como o dos refugiados. É sempre a luta pelo espaço. O bairro Texaco mudou bastante nos últimos 30 anos, foi integrado à cidade, mas agora é visto como algo mais do que pobreza, sujeira e miséria. Admite-se que ele é um espaço de história, de memória e de cultura. Há uma valorização tardia.
CS – O Nobel para Bob Dylan faz bem neste momento para a literatura?
Chamoiseau – Achei muito bom. A literatura não pode mais ficar restrita aos escritores. O objeto literário atualmente é mais complexo. Ele requer formas narrativas novas e mais amplas, agregativas. O romance, que absorve todas as formas, não pode prescindir de novas potencialidades. As formas do século XIX são insuficientes. Temos de pegar o real com ajuda da palavra, da música e de tudo mais que puder nos ajudar a capturar imaginários que escapam. A pintura saltou da tela. Por que a literatura não saltaria da sua moldura. Bob Dylan e Leonard Cohen são grandes escritores.
CS – O que significa ser um “marcador de palavras”?
Chamoiseau – Essa expressão se refere ao fato de que a minha literatura vem da oralidade. A cultura da Martinica, de resistência à escravidão, está baseada na língua crioula. É a minha base. Fui educado dessa maneira. Como escritor, mesclei a língua francesa com a crioula e construí um estilo próprio. Atrás de mim há alguma biblioteca, mas há principalmente contadores orais de histórias. Durante muito tempo eu me vi dessa forma. Depois, passei a me sentir como um guerreiro do imaginário, um intérprete de experiências.
CS – Porto Alegre recebeu outro laureado com o prêmio Goncourt há poucos dias, Michel Houellebecq. É uma boa companhia como premiado?
Chamoiseau – Não acho Houellebecq um personagem interessante. Eu não o li. É um escritor negativo. Essa negatividade não ajuda a construir universos simbólicos generosos. Céline era um crápula, mas a sua literatura abria caminhos pela sua audácia literária. Não vejo isso em Houellebecq. A liberdade de criação atual é total. Um escritor não pode ser intimidade. A generosidade, porém, para mim é fundamental.
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