Juremir Machado da Silva

Chanel e Stravinsky, duas malas

Chanel e Stravinsky, duas malas

Um dia, em Paris, fui visitar a grande historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco.
Ela havia publicado uma biografia intelectual de Jacques Lacan.
No livro, mostrava que Lacan não era um cara realmente do bem.
Era um egoísta, um chato, capaz de esquecer a família para satisfazer seus desejos pessoais.
Um egocêntrico.
Ataquei Lacan por causa disso.
Roudinesco foi definitiva: "Não se pode esperar de homens geniais e extraordinários que tenham comportamentos morais ordinários".
Uau!
Noutro sentido, os seres extraordinários podem ser ordinárlos.
Vi o filme Chanel e Stravinsky, que conta a história dos amores entre a costureira e o músico.
Cheguei a uma conclusão altamente sofisticada: eram duas malas.
Chanel era uma vaca.
Stravinsky um poltrão gigolô.
Chanel apaixonou-se por Igor e o comprou.
Ele aceitou se vender para satisfazer seu desejo sexual, para sustentar a família (filhos, mulher doente e devota)  e, boa justificativa, ter condições de produzir sua obra musical fantástica.
Passou a ser sustentado por Chanel, que o comia sob os olhos da esposa e dos filhos.
Embaixo do mesmo teto sustentado pela modista.
Igor gostava da carne e do dinheiro, mas se mantia orgulhoso.
Via-se como artista. Sua amante era para ele apenas "uma vendedora de tecido".
Chanel era uma patrola que maltratava suas funcionárias.
Sempre poderá ser vista como uma mulher à frente do seu tempo.
Igor, nesse quesito, não.
Sempre houve artistas dispostos a vender-se por sexo, dinheiro e boa vida.
Sem dúvidas, dois seres "extra-ordinários".
Levando-se em consideração apenas o filme, Chanel correspondia mesmo ao seu primeiro nome.
Ou talvez Igor devesse tê-lo adotado.
Entrariam para a historia como o casal Coco!
Amanheci moralista.