Juremir Machado da Silva

Che de Deus, um dicionário de uruguaianês

Livro é um achado de expressões deliciosas

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      Recebi dois livros deliciosos: “O passado sempre presente”, de Carlos Jorge Appel, e “Che de Deus, um dicionário de uruguaianês”, de Lourival Araújo Gonçalves, ambos publicados pela editora Movimento. Fui aluno de Appel no cursinho Universitário. As suas aulas de literatura são inesquecíveis. Ele fez da Movimento, que chega aos 50 anos de existência, uma trincheira de grandes livros, da obra completa do Cyro Martins, incontornável na “trilogia do gaúcho a pé” a novas traduções de Shakespeare. Em “O passado sempre presente”, recolhe textos que publicou ao longo do tempo, entre os quais um artigo precioso sobre “A crônica entre o jornalismo e a literatura”. Li com sede de aprendizado. Foi como ouvir a voz do professor em 1981 recitando Gonçalves Dias em aula.

      Já o “Dicionário de uruguaianês”, do médico Lourival Gonçalves, é um achado. Fronteirista que sou, a fronteira nunca sai da gente, nadei de braçada nos termos recolhidos pelo dicionarista. Remanchar: “Enrolar o papo”. Mundial: “Sujeito esperto”. Chê de Deus: “Homem de Deus”. Os alegretenses garantem que tudo era deles. Nós, santanenses, achamos uma injustiça, pois nos consideramos mais cosmopolitas. O pessoal de Uruguaiana tem língua própria. Não duvido que em algum congresso especialistas debatam algumas diferenças lexicais. No belo “Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense”, do saudoso Aldyr Garcia Schlee, “calavera” é “dito de pessoa de pouco juízo e mau comportamento”. Em Palomas e adjacências, que pode ir de Livramento a Rosário, é jogador, “tarado por jogo de azar e tudo mais”, conforme a cultura popular.

      O doutor Lourival neste seu fantástico “Dicionário de Uruguaianês” dá “retovado” por “dissimulado, fingido”. Em Palomas, entretanto, sempre foi usado no sentido de malcriado, respondão, que não se deixa montar pelo lado errado, que sempre retruca, argumenta, questiona. Como se vê, entre Uruguaiana e Livramento há um mundo de sentidos, palavras e imagens. Se duvidar, precisa de tradutor. Quando cheguei em Porto Alegre, pedi uma plancha emprestada para a vizinha. Ela respondeu que ninguém surfava na casa. Eu só queria um ferro elétrico de passar roupa. Vejo que em Uruguaiana o sentido é o mesmo. Temos algo em comum. Não largo o livro.

      Esses índios da fronteira dão cada desdobre. São ligeiros. Alguns são pesados. Ainda mais quando estão “gordos”. Constato que “gordo”, no sentido de embriagado, bêbado, não se usa em Uruguaiana. Ao menos, o termo não foi dicionarizado pelo Dr. Lourival. Ou terá sido cancelado pelo aspecto preconceituoso? Esse dicionário é uma viagem. Ainda uso expressões como “esse aí anda pedindo uma garoa com vento” ou “asááá” ou “masááá”, que em Uruguaiana caracteriza uma “surpresa agradável”. Tenho a impressão que em Palomas sempre teve algo de deboche, de ironia, de espanto provocador, meio maledicente. Coisa de gente “resbalosa”. Meu avô Tulo sempre dizia: “Que guri mais retovado esse Mirinho”. Eu respondia: “Mas que tal essa!” Espero que se organize em breve o 1º Encontro Internacional de Dicionaristas da Fronteira Oeste, com representantes de Uruguaiana, Alegrete, Palomas e outros lugares assim. O Dr, Lourival presidirá.

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Sargento

 

Eu sou paleotático. Aliás, paleolítico. Mas sem qualquer rejeição de princípio ao moderno, salvo quando ele me parece impositivo. Aí sou contra pelo prazer da oposição. Morreu Nelson Sargento, sambista de alto coturno. Um gigante. Foi-se de Covid aos 96 anos de idade, vacinado com primeira e segunda doses contra o coronavírus. Partiu o rei da Mangueira, poeta dos grandes, admirável pelo uso das palavras e pela musicalidade sublime:

“Agoniza mas não morre

Alguém sempre te socorre

Antes do suspiro derradeiro

Samba

Negro, forte, destemido

Foi duramente perseguido

Na esquina, no botequim, no terreiro.”

Sou paleotudo. Vou me incomodar com esta confissão, pois não faltará quem acredite e até me console, sem contar os que não acreditarão, mas a usarão contra mim em alguma polêmica. Quase todo dia sou ofendido com um elogio. São os elogios que subestimam. Amo a arte desses seres que fizeram da vida mais simples a transfiguração. Confesso que avanço para o coração dessa gente que nunca se afastou da sua origem. Na poesia de Nélson Sargento tem a malícia e sabedoria da margem. O essencial, porém, sempre esteve na convicção de que o cotidiano vale a pena quando há capacidade de encantamento. Era o que ia dizer a André Comte-Sponville quando o contatei para o Fronteiras do Pensamento. Mas esqueci. Então digo para o leitor.

Eu me aposentava das lutas com os neotáticos e com os negacionistas se tivesse escrito dois ou três versos desta letra agora clássica. Sargento foi ao Teatro Jovem achando que era para pintar paredes e descobriu que o trabalho era tocar violão no show Rosas de Ouro. Comprou um violão de segunda mão e com ele trocaria depois a pintura pela música. Se eu fosse da família fazia colocar na lápide de Sargento uma frase definitiva que ele fez: “O samba é uma instituição que nunca vai passar”. e para muita gente boa o genial Nelson Sargento era o general do samba.