Cinema brasileiro no Oscar
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Cinema brasileiro no Oscar

Democracia em Vertigem é uma grande reportagem

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O cinema brasileiro está em alta.

Democracia em Vertigem concorre ao Oscar de melhor documentário.

É uma baita reportagem.

Mostra aos gringos o que foi escondido de muitos nativos.

Mas vamos quadro a quadro.

Fomos ver “A vida invisível”. Horário errado. Resolvemos rever “Bacurau” (na primeira tentativa, incrivelmente, eu dormi) e emendar com “A vida invisível”. Foi uma boa ideia. A sala Eduardo Hirst, na Casa de Cultura Mário Quintana, está ótima depois da reforma. Uma das melhores para se frequentar em Porto Alegre. Passa excelentes filmes, oferece conforto, não fica cheia de comedores ensandecidos de pipoca e não está encravada num daqueles galpões de aço, vidro e concreto chamados de shopping centers. Um belo lugar para se passar uma tarde.

      “Bacurau” é bom. “A vida invisível”, de Karim Aïnouz, faz, contudo, o filme de Kleber Mendonça Filho parecer um reles divertimento de Sessão da Tarde. Claro que em tempos de “Coringa” e “Parasita”, com suas farturas de sangue e mortes, “Bacurau” mostra-se mais atual do que um “melodrama tropical”. O problema de “Bacurau”, do ponto de vista deste humilde espectador, é simular enigma em cada detalhe e não resolver. Fica como alegoria, metáfora, parábola. De que mesmo? Do que o espectador bem quiser. Tem o assassino de olhar blasé. É um fetiche do cinema brasileiro. Ah, não gostei de “Bacurau”? Gostei. Só que ele é soterrado por “A vida invisível”. Melhor não ver os dois em sequência.

      “A vida invisível” põe a nu o tradicional patriarcalismo brasileiro. É uma autopsia do machismo reinante ao longo do tempo e que ainda não se entregou completamente. O que se vê? O poder do macho em todas as suas formas, especialmente as formas de pai e marido cruéis. Por que esse filme me parece tão bom? Por coisas simples assim: conta uma história, mostra personagens com altos e baixos, que sofrem e gozam, desesperam-se e ainda acreditam, lutam e perdem, apostam, enfrentam ou rendem-se, oscilam, teimam, insistem, inventam novos caminhos, contradizem-se e não fazem ar blasé para tudo na vida.

      Outro dia, entrevistando, junto com Lucas Rivas, o cineasta Fernando Meirelles, para o Esfera Pública da Rádio Guaíba, tivemos uma conversa divertida ao comparar os cinemas brasileiro e argentino. Meirelles definiu bem: é questão de safra. Em 2019, com “Bacurau”, “A vida invisível” e outros, o Brasil deu de goleada. A propósito, “Dois Papas” também é ótimo. Lembramos, com Meirelles, de um documentário fantástico: “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes. É bom ver salas cheias para assistir a filmes brasileiros, ainda mais quando eles nos fazem pensar sobre o que somos.

      Emocionante, em “A vida invisível”, a cena final de Fernanda Montenegro. A atriz faz quase uma ponta no filme, mas com que qualidade e entrega! Não serei inflexível: o melhor é ser eclético mesmo, degustar um pouco de cada estilo, de cada gênero, de cada forma narrativa. Um pouco de “Bacurau”, outro pouco de “A vida invisível”, uma pitada de “Dois papas” e assim vai. Serei ufanista sem me vestir de verde e amarelo: não vi filme estrangeiro melhor do que “A vida invisível” nesta safra. Por mim, levava Oscar. Obviamente que sem sangueira fica muito difícil atualmente. Ou é que ando muito sensível.

Esperarei que o fantástico “Democracia em vertigem” pape uma estatueta.

É o filme certo na hora certa.

Só que tem grandes concorrentes. Por exemplo, Fábrica americana, que trata de uma empresa chinesa instalada nos Estados Unidos em luta contra sindicalização, direitos trabalhistas e dignidade das pessoas. O horror neoliberal chinês.