Cobaias ou heróis?
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Cobaias ou heróis?

Como definir voluntários para receber o vírus?

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      É tempo de filosofia e de discussões sobre ética. Um tema tem provocado reflexões por toda parte: a inoculação do coronavírus em voluntários para fins de pesquisa de uma vacina. Muitos brasileiros inscreveram-se num site americano de recrutamento de candidatos. São pessoas jovens, sem qualquer histórico de doença e supostamente menos suscetíveis a uma forma grave de infecção. Em tese. Até agora ninguém foi chamado para qualquer experiência. Há cientistas contra e a favor dessa modalidade extrema de investigação. Quais são os argumentos?

 

      Em princípio, contaminar uma pessoa sadia com um patógeno parece antiético e perigoso demais. Alguns voluntários alegam que correm, como qualquer pessoa, muito risco de contrair o coronavírus, sem acesso a suporte hospital. Receber voluntariamente o vírus em troca de assistência garantida seria um ganho. Além disso, a pessoa estaria colaborando para salvar a humanidade. O uso de voluntários permitiria acompanhar todos os estágios da doença e observar seus desdobramentos. Mas pode alguém colocar a sua saúde em risco em favor da coletividade? Os consequencialistas – aqueles que medem o valor das coisas pelas consequências, ou seja, por seus resultados – dizem que bombeiros fazem isso a cada incêndio. No entender deles, portanto, nada de anormal.

      Há, porém, quem se guie por princípios. Pode a sociedade aceitar que alguém coloque a sua saúde em risco por um hipotético benefício a todos? Nesta linha de reflexão, mesmo que o indivíduo, livre e autodeterminado, queira, a coletividade deve recusar. A vacina de Oxford, como está sendo chamado um dos projetos mais avançados contra o coronavírus, com expectativa de conclusão em setembro, escolheu voluntários no setor da saúde para tentar queimar etapas. O teste está sendo feito com quem entra em contato com o vírus na linha de frente dos hospitais. É outra conversa. Alguns cientistas temem que a pressa pela vacina pisoteie os rigorosos mecanismos de controle ético da ciência e resulte em soluções inseguras e com efeitos colaterais.

      A situação é objetiva: a humanidade não pode esperar. A volta à normalidade depende da velocidade da ciência para chegar a um remédio ou a uma vacina. Na França, um voluntário disse que ninguém pode impedi-lo de querer sacrificar-se por uma causa tão nobre. A Organização Mundial da Saúde já cuida de outro patamar: reunir dinheiro para que, descoberta a vacina, ela possa ser produzida imediatamente para todos no mundo. Se for a vacina de Oxford, o entendimento parece muito possível. Se forem as vacinas alemã ou suíça, também. E se for a vacina chinesa? Entraremos numa guerra pela quebra da patente? A pressão sobre a China, como berço da pandemia, crescerá exigindo a liberação da vacina como uma compensação pelos danos causados?

      Um voluntário é uma cobaia? Ou um herói em potencial determinado a ajudar a humanidade a vencer o inimigo que ameaça aniquilá-la? Ir à guerra por um país não é da mesma natureza? – perguntam defensores da aceleração dos experimentos. Nada será como antes. Talvez nem a ética.