Se parasse agora, ficava só lendo tudo o que recebi de interessante nesta Feira do Livro de Porto Alegre. É tanto livro bonito, tanto título torneado, tanta obra faceira, tantas linhas ligeiras como falcões, tanto texto profundo, tanta boa provocação, tanta capa com esquina, tudo que me fascina. Fiz uma pilha na mesa. Abri ao acaso. Era “Plêiade”, do poeta Paulo Alonso. Dei uma parada nestes versos: “Amo a noite. Amo o que se esconde (o que se define) como intimidade”. Saltei para “Degraus da vida”, do bravo lutador Antônio Carlos Côrtes. Senti a força do texto “Quando o negro ri – sobre o preconceito”: “O negro ri quando, no supermercado, é seguido por seguranças em todos os lados, com certeza para lhe proteger”.
Estacionei em “Palmarinca, livros, sentimentos, capitalismo e resistência”, de Cesar Beras, sobre os 45 anos da livraria Palmarinca, uma pérola de Porto Alegre que resiste às metamorfoses do tempo e da tecnologia. Voltei aos versos com “Arquipélago poético”, de Izabel Camargo. Ela diz que é uma das minhas “velhinhas” leitoras. Anotei: “Saboreio com olhos/o colorido dos rostos”. Detive-me em “A vida das sobras”, do poeta Carlos Eduardo Caramez: “Tudo que eu tenho/é meu corpo/o que eu faço/é minha vida/nada é mais veloz/que a minha pressa”. Tomei fôlego para “Sexo, política, poder e outros ensaios”, de Franklin Cunha. Aprendi que os “bárbaros não usam calças”. Fiquei de frente para outras duras verdades.
Voltei um pouquinho no tempo (parece que foi há século, mas foi ontem) com “Nada será como antes – 2013, o ano que não acabou na cidade onde começou”, de Alexandre Haubrich. Começou em Porto Alegre. Inundou o Brasil. Para cada choque de realidade um pouco de poesia. Sentei na poltrona vermelha para ler “80 poemas esta noite, a poesia de Luiz Coronel em Madrid e Salamanca”. Absorvi: “O pampa é o além do além,/é o além do fim do mundo./Pois o pampa não tem lado,/não tem fronteiras ou fundo”. Bueno.
Dancei com o “Tango em Porto Alegre, uma página do patrimônio cultural imaterial da humanidade”, de Washington Gularte, que encontrei na rua com seu sotaque de Gardel. Delirei com “A lenda do patinho azul”, do dadaísta Esteban Rey Fontan. Retomei “Lula na Lava Jato e outras histórias ainda mal contadas”, do velho guerreiro jornalista José Augusto Ribeiro. Extasiei-me diante do lindo volume de 670 páginas da nova edição de “O cavaleiro da terra de ninguém”, de Sinval Medina, lido na primeira saída. Deliciei-me com alguns dos contos do saudoso Moacyr Scliar em “O carnaval dos animais”. Ainda bem que não sei dirigir. Em ônibus, sempre devoro algumas páginas. Não tem contraindicação. Pode-se consumir sem moderação.
Parafraseando o poeta, olho os livros na Feira como quem fitasse a geografia de cidade antiga.
Sinto uma dor lacerante pelos livros que nunca lerei.
Há tanta barraca esquisita, tanta história bonita, tantas páginas que nunca visitarei. Feira de Porto Alegre, doce encontro amoroso de cada ano, praça do meu andar cada vez mais lento e talvez do meu último livro.