Juremir Machado da Silva

Como é bom ter leitores (1)

Como é bom ter leitores (1)

Caro Juremir: você é o melhor de todos, disparado. Nunca me canso de ler você. Admiro seu senso de ironia. Rio muito e nunca me chateio. A sua coluna é o melhor remédio contra o tédio. Vilmar Barbosa


São José, 28 de janeiro de 2011.

Prezado Juremir,
Cumprimentando-o, venho manifestar-me sobre seu texto publicado no dia 2612011 no CP através de sua coluna diária. Primeiro quero dizer que não trata-se de uma resposta produzida com a profundidade reflexiva necessária, pois o tema tratado é de uma complexidade impar no contexto de situações de convívio e conflitos interétnicos que acontecem cotidianamente em grandes centros urbanos como Porto Alegre. Conceitos de criança na sociedade nacional envolvente X criança indígena; trabalho na sociedade nacional X exploração de trabalho infantil em comunidades indígenas; mendicância em nossa sociedade X experiência de troca "dádiva e contra dádiva em sociedades indígenas"; confinameneto dos indígenas em diminutas áreas X necessidade de demarcações de terras indígenas no RS; pressões de prefeitos e do agronegócio contra demarcações X necessidade de terras com mata nativa, boas águas, peixes e pequenas caças para os indígenas no RS... dão "pano-pra-manga" como dizemos ai no RS.
Quero te dizer que no primeiro momento, parece-me que não fugiste, em teu texto, ao senso comum de como nossa sociedade consegue enchergar os indígenas que ao virem ao centro de Porto Alegre, o fazem muito por necessidade diária de conseguir "troquinho"... mas que na perspectiva de sua cultura não estariam humilhando-se a nossa cultura, mas provocando uma situação de troca conosco... e há uma situação de sobreposição de territórios, pois construímos nossas cidades em cima de territórios indígenas.
É importante que reconheçamos que há uma enorme carência de recursos materiais para uma situação boa de autosustentabilidade destas comunidades no RS e que se em suas aldeias houvesse uma situação de "oferta" de recursos naturais razoáveis as mães Guarani talvez não viessem para o centro de POA todas as manhãs as 7:00 a ficar dia inteiro a espera de troquinhos...
Bom, sou cientista social, professor, formado pela UFRGS ligado a antropologia. Trabalho na FUNAI Regional do Litoral Sul que atende as comunidades Guarani e Xokleing do litoral do Paraná, Santa Catarina e do RS. Atualmente sou assistente técnico desta regional e trabalhei na Coordenação Local de Porto Alegre.
Gostaria de propor-lhe uma pauta para seu programa de rádio em que poderiam participar um representante da FUNAI Regional, um representante do NPPPI - Núcleo de Políticas Públicas para os Povos Indígenas da Prefeitura, um professor de antropologia da UFRGS e uma profissional da FASC.
(este comentário não é uma nota oficial da FUNAI sobre seu texto e se agendarmos com antecedência de umas duas semanas poderei estar presente ai em seu programa).
Parabens pelo trabalho.
Até breve.
João Maurício Farias