Como é bom ter leitores (3)
Juremir, li o seu artigo sobre as crianças de mulheres índias. Você
demonstrou ter uma cultura hamanista superior. Tive terras no Mato
Grosso (Diamantino, ao longo da BR 364) e lá forçado a conviver com
alguns gauchos falidos, buscando recuperação econômica. Um deles,
chamado Kasper, ex-dono de uma indústria de óleos vegetais, numa
noitada com muita cerveja, chegou a enaltecer o extermínio de índios
da reserva dos Parecís. Só não lhe dei um soco porque eu, sendo
minoria, iria certamente apanhar muito. O Percival Puggina, colunista
da Zero Hora, chegou a ousadia de considerar, de viés, que os nossos
índios não fazem parte da humanidade. Que a predominância dos brancos
(nas terras da Raposa...) era necessária para evitar riscos de
levantes étnicos e perda de terras nacionais.
Carlo Majewski
Caro Juremir,
sou estudante de história e um verdadeiro fanático pela história indígena e pela filosofia da diferença. Fiquei especialmente feliz com o artigo que publicaste hoje na coluna do Correio, pois compartilho das mesmas inquietações. Lendo ele com calma, dois pontos me chamaram especial atenção, de forma que gostaria de te sugerir alguma reflexão a respeito.
O primeiro deles é que há uma tendência histórica, que vem desde o primeiro português a pisar aqui, em uniformizar o índio. A uniformização, ou até mesmo a invenção do índio, é uma forma sútil e insidiosa pela qual o poder se manifesta, transformando o potencial transgressor de uma cultura autóctone extremamente diversa numa categoria generalizante e redutora de singularidades. Em suma, o que quero dizer é que é difícil comparar "O indío (no singular) e a criança", é preciso saber antes quem é esse índio, pois essa categoria não corresponde à variedade extrema das culturas autóctones, e sim a um mecanismo de poder muito eficaz instalado desde a chegada dos portugueses.
A segunda questão é de ordem mais teórica, e diz respeito ao tema da diversidade cultural de maneira geral. Nos últimos dias, estive lendo um artigo do professor Renato Ortiz, em que ele alerta especialmente para o cuidado especial que devemos ter com a temática da diferença, de maneira que ela não sirva como máscara para a questão da desigualdade. Reconhecer a diferença não pode ser um argumento que justifique o esquecimento de centenas de anos de exploração de algumas culturas por outras; muito menos pode servir como fórmula mágica para justificar a nossa acomodação no tempo presente. Talvez caiba lembrar que a diferença é sempre relacional, históricamente construída e, portanto, não é apenas uma categoria abstrata que nos permite ter um sono mais tranquilo a noite.
Bem, peço desculpas pelo tamanho do email (imagino que tenha muitos para ler), mas ele é diretamente proporcional à inquietação provocada pela leitura de um bom artigo num jornal de grande circulação (matéria em extinção, como deves estar careca de saber).
Um abraço, do leitor Gabriel Torelly
Bom dia!
Preciso confessar que não sou uma leitora assídua da tua coluna. Mas hoje, a foto da criança índia me chamou a atenção e resolvi ler o artigo. Talvez tivesse sido melhor não fazê-lo, pois, ao final, as lágrimas rolavam pelo meu rosto e eu não conseguia contê-las. Desde criança sou apaixonada pelos índios, mesmo quando assistia os filmes de faroeste, aquela coisa horrorosa que mostrava os índios como inimigos implacáveis dos brancos e, em nenhum momento deixava escapar a verdade dos fatos. Já naquela época, eu torcia pelos índios e, na minha inocência infantil, desconfiava de que algo não estava certo. Na faculdade, estudando literatura brasileira, foi que eu resolvi prestar mais atenção nesse assunto, Iracema, um clássico, me deixava encantada e, ao mesmo tempo, indignada. Já faz algum tempo que, saber das condições de nossos índios, os poucos que escaparam do extermínio, me deixa preocupada. Os que vivem em acampamentos, os que vivem em assentamentos e os que vivem ainda em aldeias estão sempre correndo riscos, riscos causados por nós, os ditos civilizados. Certo é que, no capitalismo, a vida é difícil para todos os pobres, e os índios são pobres. Você escreveu hoje quase tudo que penso e isso me fez bem. Criança é criança, e, como tal, deve ter direito a ficar com seus pais, seja em uma casa, bem alimentado, brincando no parquinho e frequentando à escola, seja na aldeia, comendo o produto da terra, tomando banho no rio, correndo livre como parte da natureza e frequentando a escola da aldeia, que respeita sua cultura e lhe dá condições de entender o mundo em que vivemos (se é que isso é possível). Um abraço.
Maira Iara de Farias Ávila
Professora da rede pública estadual
Juremir, Mui Caro.
SAÚDE E PAZ!
Excelente o tema da tua coluna de hoje - "Criança ou Índio?".
As famílias indígenas mendigam pelas imundas calçadas de muitas cidades do Rio Grande - aqui em Camaquã, também, elas rastejam pelas esquinas.
Verdade, nem o Conselho Tutelar ou o Ministério Público tomam providências, afinal, os "especialistas" entendem que índio é índio...
Esses "especialistas" (em sua maior parte, são os mesmos que estão por detrás dos ditos sem-terra e dos quilombolas) advogam - em causa própria, defendendo seus próprios "interésses"... - que esses "excluídos" devem ser mantidos à margem para, sempre, servirem de caldo de cultura, de massa de manobra para "causas" que gere dividendos para alguma ONG.
Voltando ao Camaquã, aqui no distrito da Pacheca existe uma RESERVA INDÍGENA (mais de 1.000 Ha!) praticamente deserta - um "latifúndio improdutivo" - ao mesmo tempo, proliferam-se os "acampamentos indígenas" às margens da BR-116...
Sempre em função dos interesses (muitas vêzes excusos...) desse povaréu que vive em função das mazelas e misérias alheias.
Isso é cultura?
Abraço fraterno,
Ignácio Mahfuz, Engenheiro Agrônomo
Olá Juremir
Já fui contemplada no artigo de segunda feira.
Utilizamos com meus colegas de História e Geografia teus textos.
Continuo lendo e aguardando essas noticias das políticas públicas da Asistencia Social
na Europa e outros. Precisamos limpar a idéia de que todas as ações que beneficiam os
necessitados são ruins.
Penso que não dá certo por que quem não necessita encontra um jeito de se beneficiar
e os que precisam não aprenderam a gritar, denunciar e lutar por esse avanço.
Quando os verdadeiros necessitados do bolsa-familia ou outro beneficio abraçarem este ganho
como seu de direito, tirando os aproveitadores através da divulgação nas rádios e jornais
de seus nomes, acredito que seremos melhores em todos os sentidos.
Há uma crise moral ...
Um abraço
Ilara