Como Israel tomou conta da Palestina
Sempre que Israel comete uma barbaridade contra os palestinos, como o recente ataque aos navios com ajuda humanitária. releio meus textos sobre Shlomo Sand. Aproveito para publicá-los aqui no blog.
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Continua a fazer barulho na França o livro “Como foi inventado o povo judeu”, do historiador israelense Shlomo Sand, da Universidade de Tel-Aviv, que viveu até os dois anos de idade num campo de concentração e foi soldado na guerra dos seis dias.
Nossos desconstrutores de mitos não dão nem para a saída perto desse intelectual sem papas na língua nem medo de arranjar encrenca. Segundo ele, a ideia de que os judeus são um povo, uma etnia ou que descendem de Moisés, Davi e Salomão é apenas uma fábula religiosa recuperada no século XIX e oficializada a partir de 1960.
Num artigo para o jornal Le Monde Diplomatique, Sand situou o mito na sua forma tradicional: “Qualquer israelense sabe que o povo judeu existe desde a entrega da Torá no monte Sinai e se considera seu descendente direto e exclusivo. Todos estão convencidos de que os judeus saíram do Egito e fixaram-se na Terra Prometida, onde edificaram o glorioso reino de Davi e Salomão, posteriormente dividido entre Judéia e Israel. E ninguém ignora o fato de que esse povo conheceu o exílio em duas ocasiões: depois da destruição do Primeiro Templo, no século 6 a.C., e após o fim do Segundo Templo, em 70 d.C.”. Um mito bem estruturado.
Sand o desmontou: “De onde vem essa interpretação da história judaica, amplamente difundida e resumida acima? Trata-se de uma obra do século 19, feita por talentosos reconstrutores do passado, cuja imaginação fértil inventou, sobre a base de pedaços da memória religiosa judaico-cristã, um encadeamento genealógico contínuo para o povo judeu. Claro, a abundante historiografia do judaísmo comporta abordagens plurais, mas as concepções essenciais elaboradas nesse período nunca foram questionadas”. Nunca tinham sido questionadas. Ele tratou de fazer isso: “Mas eis que, ao longo dos anos 1980, a terra treme, abalando os mitos fundadores. Novas descobertas arqueológicas contradizem a possibilidade de um grande êxodo no século 13 antes da nossa era. Da mesma forma, Moisés não poderia ter feito os hebreus saírem do Egito, nem tê-los conduzido à ‘terra prometida’ — pelo simples fato de que, naquela época, a região estava nas mãos dos próprios egípcios! (...) Tampouco há sinal ou lembrança do suntuoso reinado de Davi e Salomão.
As descobertas da década passada mostram a existência de dois pequenos reinos: Israel, o mais potente; e a Judéia, cujos habitantes não sofreram exílio no século 6 a.C. Apenas as elites políticas e intelectuais tiveram de se instalar na Babilônia, e foi desse encontro decisivo com os cultos persas que nasceu o monoteísmo judaico”. O livro de Sand sacudiu Israel e dá o que falar na França.
Sobra pouco do mito: “E o exílio do ano 70 d.C. teria efetivamente acontecido? (...) os romanos nunca exilaram povo nenhum em toda a porção oriental do Mediterrâneo. Com exceção dos prisioneiros reduzidos à escravidão, os habitantes da Judéia continuaram a viver em suas terras mesmo após a destruição do Segundo Templo”. Isso não deslegitima Israel nem autoriza pretensões racistas. Prova que a história é construção: “Esses relatos (...) figuraram na historiografia sionista até o início dos anos 1960”. Para o judeu iconoclasta Shlomo Sand os judeus são apenas os membros da religião ou da cultura judaica que se formaram principalmente por conversão na África do Norte, no sul da Europa e no Iêmen. Ironia? A história, porém, sempre reaparece para gerar polêmica.