Muitas vezes, a partir de mal-entendidos ou de erros de interpretação.
Nada mais fácil do que encontrar uma declaração sobre o atestado de óbito de João Goulart dizendo que nele consta apenas o enigmático termo "enfermedad" (doença).
Basta entrar no site do Instituto João Goulart para se encontrar facilmente essa narrativa como elemento robusto de suspeita, indício de algo terrível, sobre a morte de Jango.
No Jornal Nacional, da Rede Globo, quando do anúncio da decisão de exumação dos restos mortais de Jango, essa história foi contada e ficou como um indício evidente de um possível assassinato.
Em entrevista ao Jornal do Brasil online, João Vicente Goulart declarou: “A certidão de óbito não dizia nada com nada, apenas ‘Muerte por enfermedad’ (morte por doença) e, o mais grave de tudo, que não foi feita a autópsia dos restos mortais, nem na Argentina e, tampouco, em nosso País”.
Acontece que o atestado de óbito de Jango diz "infarto do miocárdio".
Essa descoberta que eu fiz e publico em meu livro "Jango, a vida e a morte no exílio" (L&PM) é furo que deveria dar capa em todos os jornais brasileiros e ser matéria do mesmo Jornal Nacional.
Eu deveria ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo por esse furo.
E o prêmio Jabuti pela obra, romance de não ficção, grande reportagem, que escrevi.
Espero que tenham a sabedoria de me atribuir tais distinções.
Já aviso que recusarei.
Meu livro foi feita em cima de uma montanha de documentos sigilosos. Tem de tudo, de material do SNI ainda não divulgado a papéis da polícia uruguaia e da justiça argentina.
O atestado de óbito de Jango consta nos autos da investigação acontecida na Argentina em 1982.
Tive acesso ao inquérito.
(folha de rosto do inquérito argentino)

Quem fala apenas em "enfermedad" confunde "acta de defunción" (registro em cartório) com "certificado médico de defunción" (atestado médico de óbito) e "autorização para translado do corpo".
A "acta de defunción" (registro em cartório de uma morte) diz que "faleceu JOÃO BELCHIOR MARQUES GOULART de enfermedad según certificado médico del doctor Rafael Ferrari que se archiva bajo el número de esta acta" ( ou seja, fica em anexo).
"acta de defunción"

No atestado de óbito arquivado em anexo à "ata de defunción" a causa da morte está claramente definida pelo doutor Rafael Ferrari: infarto do miocárdio.

Por fim, foi emitida uma autorização de translado do corpo, anexada por Foch Diaz em seu livro "El crimen perfecto", tirado de circulação pela justiça uruguaia por ser calunioso e difamatório.

Consta também aí que João Belchior Marques Goulart morreu de "enfermedad" segundo "certificado de defunción otorgado pelo Doctor Rafael Ferrari".
Quem quisesse saber a causa da morte de Jango deveria recorrer obviamente ao atestado de óbito.
Foi o que fez a justiça argentina em 1982.
Quem prefere pensar como num romance policial fical só com a folha de rosto ("acta de defunción").
Falta responder a outro mistério: por que essa descoberta não dá manchete em todos os jornais?
Elementar, caro leitor: porque tem a minha assinatura.
Como dizia Ricardo Piglia, citação que faço pela milionésima vez, os paranoicos também tem inimigos.
Posso passar a vida desovando aqui documentos desconhecidos do público que me permitiram escrever sobre Jango, a ditadura militar, a Operação Condor e assuntos do gênero.
Não me espantarei se dia desses uma capa da Veja ou congênere atribuir a descoberta do atestado de óbito de Jango e a solução desse enigma a outra pessoa. Imagino até os nomes prováveis.
E podem, claro, me chamar de ressentido.
Afinal, os ressentidos também amam.