Como vencer na vida sendo ruim
Vou voltar a investir em autoajuda.
Só por prazer estético.
Dinheiro não me falta. Sou milionário.
Muitos leitores, indignados comigo por causa do casamento real, afirmam que sou medíocre.
É verdade. Eu sou muito ruim. O pior de todos. Ninguém me baterá nesse quesito.
Um leitor garante que sou chato.
Garanto que ele é tão chato quanto eu.
Vez ou outra, vou de bateu levou. Só pela emoção do troco.
Os que falam em chatice normalmente são desprovidos de senso humor ou acham que os três maiores gênios brasileiros são Jô Soares, Marília Gabriela e Ruy Carlos Ostermann.
Outro afirma que os britânicos veneram a rainha como se venera pai e mãe.
Tenho certeza disso. É o que chamo de caipirice real.
Ainda não sei se a rainha parecia um bem-te-vi, um canário belga ou um jacaré de papo amarelo.
A noiva estava bem bonitinha. Perfeita para o bibelô que vai ser.
Um leitor pergunta quem sou eu para falar mal da família real.
Eu poderia perguntar quem é essa família para se achar real.
Ou poderia perguntar quem é ele para perguntar quem sou eu, mas desisto.
Respondo agora: ninguém. Eu sou ninguém. Mas não faz sentido.
Mudo: eu sou um gênio, a antena da espécie, um radar planetário.
Apesar de ruim, invejoso, medíocre, ressentido e magoado por não ser reconhecido como escritor, sou um vencedor, um winner, um cara genial, um criativo total, a marca do Zorro. Imaginem se eu tivesse lido Augusto Khouri.
Meu livro, Como vencer na vida sendo ruim, será um best-seller.
Serei o meu próprio case (caipira brasileiro adora palavras em inglês).
Apresentarei cem dicas para vencer sendo medíocre.
Dica número um: estabeleça seu próprio conceito de vencedor.
Fica melhor para ganhar.
Corra atrás (correr na frente é coisa de quem está fugindo)
Uma moça me critica por eu ter chamado a futura rainha da Inglaterra de "maria coroa".
Por que se pode falar em maria chuteira e não em maria coroa?
A moça teme que minhas grosserias provoquem um atrito com o povo inglês.
Estou pronto a pedir desculpas ao povo inglês para evitar uma guerra entre Brasil e Inglaterra.
Aceito ser mártir. Aceito me humilhar para salvar o Brasil da humilhação.
Outro leitor, em tom psicologizante, afirma, com ineditismo e sofisticação indescritíveis, que sou angustiado por não ser reconhecido como um escritor minimamente aceitável. Uau!
Tudo o que é quero é ser um escritor totalmente inaceitável.
Tem um que me desafia. Quer ser surpreendido.
Custa mais caro. Sou um mercenário.
Muitos me elogiam: tua crônica é boa, mas a de hoje estava maravilhosa.
Boa? Minhas crônicas são estupendas, geniais, marcantes, as melhores do planeta.
Quem não pensa assim, está out (Carrion vai ficar louco da vida).
Não me compreende. Nós, gênios, somos sempre incompreendidos pela turba.
Não me venham com elogios baratos.
Aprendam a elogiar. Caprichem. Não economizem.
Existem os que tremem diante de um nome de filósofo estrangeiro.
Trancam. Não entendem mais coisa alguma.
Queixam-se: a gente não conhece o tal filósofo.
Se eu digo, Edgar Morin, pensador francês, garante, citando Pascal, que o contrário de uma verdade profunda pode não ser um erro, mas outra verdade profunda, o leitor fica apavorado: como vou entender isso? Não conheço Morin. Nem Pascal.
Eu ajudo. Não precisa conhecer Morin e Pascal. Já está aí tudo o que precisa ser entendido.
Como sou magnânimo.
Em todo caso, se quiser, o leitor pode aproveitar e consultar o google. Ou ler Paulo Santana.
Tem aqueles que falam assim: normalmente eu não te leio, mas hoje, passando os olhos, gostei...
Conversa fiada. O cara lê todos os dias, mas não quer dar o braço a torcer.
Tem aquele que fala assim: eu não te leio, mas minha avó, de 89 anos, te adora.
Como é que essas pessoas de bom gosto não conseguiram transmitir aos seus filhos e netos os bons valores?
Onde foi que erraram?
Não percam tempo tentando ferir meu orgulho.
Eu não o tenho.
Aos mais desesperados, dou um conselho: não sofram, não se torturem: não me leiam.
Sei que é difícil não me ler. Sei que é um vício. Tentem. É como deixar de fumar.
Ou relaxem. Aceitem a dependência. Curtam como se chicoteia o lombo ou coça frieiras.
Sei que sou o melhor.
Dentro de mil anos ninguém duvidará disso.
Quem viver, verá.