Sem que os eleitores soubessem foi instalada uma constituinte exclusiva no Brasil.
Exclusiva para atender aos casuísmos dos eleitos.
É questão de escuta.
Definitivamente políticos podem ser muito especiais. Não é para qualquer um essa distinção. Eles têm ouvido diferente. Ouvido do tuberculoso. Era assim que se dizia antigamente. Ouvido musical também. Político dança conforme a música? Não mais. A cadência agora é outra. Político ouve a música que bem quer e impõe o seu ritmo. Predominam o sertanejo universitário e o funk. Vai até lá embaixo. Para ser político é fundamental espichar o ouvido e manter as orelhas bem limpas. A voz do povo precisa ser ouvida e atendida. É a lei. Exemplos não faltam dessa audição privilegiada. Aqui vão alguns.
A sociedade brasileira pediu uma reforma eleitoral. O Congresso Nacional resolveu escutar o povo. O Brasil estava saturado de tanto partido. Uma maneira de reduzir o número de siglas no parlamento seria adotar uma cláusula de barreira e acabar com as tais coligações nas eleições proporcionais. Nossos representantes ouviram isso e fizeram justamente o contrário. Mantiveram tudo como está. O mais interessante vem agora. A plebe está cansada de políticos. Atentos a isso os deputados resolveram conceder-se mais um ano de mandato. Uau! Mas acharam por bem reduzir o mandato dos senadores de oito para cinco anos. Os senadores não aprovam a ideia. Alguns gostariam de ter dez anos para “pensar melhor o país”. Ouvido de político é bizarro.
Ficou provado que financiamento empresarial de campanha ajuda a produzir corrupção. Cientes disso nossos zelosos representantes decidiram eliminá-lo? Não. Preferiram inscrever o financiamento empresarial de campanha na Constituição. A população nada expressou quanto a reeleição de prefeitos, governadores e presidentes. Mas os políticos ouviram algo inaudível e decidiram acabar com essa possibilidade, inclusive os tucanos, que a defenderam em favor de FHC, com direito a votos comprados e validade para o presidente que estava em campo. A sociedade acha muito estranho que um candidato com menos votos possa se eleger no lugar de outro com mais votos. O Congresso Nacional ouviu esse queixa e tomou uma medida. Manteve exatamente o mesmo sistema. Os cidadãos querem o voto facultativo. Os reformistas mantiveram o voto obrigatório. O voto ficaria mais caro.
É impressionante a capacidade de escuta dos políticos. O eleitor vota em pessoas. Os políticos só falam na importância de fortalecer os partidos. Por sorte, vez ou outra, os políticos se desentendem e votam contra os seus interesses. Uma parte da cartolagem queria eleições só a cada cinco anos. Daria menos incômodo e mais tempo para se aposentar. Não passou. O ouvido dos políticos é seletivo. A massa falou em reforma política. Os eleitos entenderam reforma para os políticos. Até agora, com muito esforço, foi aplicado o princípio de mudar tudo para nada mudar. Perfeito. Por uma questão de isenção e justiça é preciso dizer que uma alteração aprovada na reforma da Câmara dos Deputados é espetacular e terá grandes consequências sobre nossas vidas: a posse dos eleitos para cargos executivos não acontecerá mais em 1º de janeiro. Fomos ouvidos.
A Constituição está sendo estuprada coletivamente.
Ninguém reage.
Chamem os direitos humanos.