Juremir Machado da Silva

Conta de mentiroso?

Conta de mentiroso?

Noves fora

Observe-se um folheto publicitário qualquer. Eles nos revelam um mundo maravilhoso de itens repletos para satisfazer necessidades que não temos. A marca é imprescindível e as facilidades também o são. Parcelam-se em 10vezes. Curioso observar que todos terminam pelo algarismo “9”, ou “89”, ou “90”. Da caixa de fósforos ao apartamento de cobertura de três dormitórios, tudo finaliza por “9”. Não sou muito bom em aritmética, porém acho mais curioso ainda o fato de as parcelas terminarem em “9” ou “90”. Do absorvente ao carrão importado, tudo termina em “9”. Não apenas os folhetos, mas os anúncios publicitários de jornais, revistas, televisão, vitrinas de lojas, tudo com a mesma concepção. Bilhões de mercadorias que têm seus preços precisamente calculados de modo a dar ao consumidor a clara e taxativa convicção de que se um centavo fosse acrescido ou retirado, o preço estaria irremediavelmente distorcido. Haja calculadora para computar matéria prima, trabalho, transporte, impostos, comerciais inteligentíssimos, salários de vendedores, lucro, pró-labore, aluguel, ponto comercial, estudos estatísticos e o escambau e finalizar sempre em nove. Quanto sacrifício um comerciante ou industrial precisa fazer para ganhar com exatidão o pão que o nove amassou! Puxa. Ainda tem o cara que calcula o preço. Com os noves dentro.

Causou surpresa comercial feito pela operadora de telefonia que me convidava antes do “Dia das Mães”: “- fale 10000 minutos com sua mãe”. Acho que deveria avisar o publicitário de que minha mãe é falecida e que se eu desejasse falar com ela talvez não fosse “esse” o canal. Pois o número de minutos não terminava em “9”. Uma sugestão: fale 9999 minutos com sua amada, (porque mãe nem todos têm; já amada, quem sabe...) ou 10009minutos. Acho que o “9” foi criado pelos donos de Postos de Abastecimento. Pelo menos eles criaram algo além dos centavos. Suponho que sejam os milhavos. (o termo é meu, mas a idéia não.) O centavo-moeda não existe mais. Não circula mais. Foi retirado do mercado. Exceção feita apenas ao mercado de combustíveis. Aí existe o “milhavo”. O nove virou uma praga nacional. As pessoas percorrem quarteirões para abastecerem seus carros por 3 milhavos de vantagem. Uma questão provavelmente etimológica: a palavra milhavo deve ter se originado do convite “abasteça e ganhe milhas aéreas de vantagem”. Milha, donde surgiu o milhavo.

Se o consumidor for ao supermercado comprar uma lata de cerveja, encontrará o preço na gôndola: R$1,99. Ao passar na caixa, terá de deixar R$2,00. Pergunta: por que o supermercado não coloca logo R$2,00 já que não irá devolver o centavo?

Minha curiosidade reside na importância deste “9”. Chega de tanto nove. Se não noves fora, “fora os nove!”. Em resumo: nós, consumidores, somos todos manés.

Um abraço.

Fernando Tripoli Melo