Juremir Machado da Silva

Continho

Um adolescente, um cachorro e uma bicicleta

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      Vou embora, eu disse. E repeti: no fim do ano. Falei isso para a minha bicicleta verde e para o meu cachorro amarelo, o Lobo. Depois, falei para todo mundo. Uns acreditaram. Outros duvidaram. Houve quem tentasse, com bom senso, me persuadir a ficar. Até me indicaram para trabalhar numa ferragem. Mas eu estava disposto a partir: queria ser ator no Rio de Janeiro ou jornalista em Porto Alegre. Havia alguns problemas para executar o plano: nenhum centavo no bolso, falta de contatos e um pouco de medo. Os meses foram passando. Eu já tinha tomado algumas medidas como vender melancias na beira da estrada, criar um terneiro guaxo e jogar garrafas ao mar. Eu não pensava nos dias que faltavam para a saída. Passava as tardes deitado num sofá vermelho estudando para o vestibular. As ideias, pensava eu na época, entravam melhor no cérebro com a pessoa na horizontal.

      Quando as dúvidas me assaltavam, eu pegava a minha bicicleta verde, pintada à mão por mim, e corria pela cidade em busca de ar e de ideias, que não vinham. Ou jogava bola com o Lobo. Creio que lhe contei todas as minhas aflições e planos, que se resumiam a isto: quero ir embora estudar. Lobo balançava a cabeça ora afirmativa ora negativamente. Acho que nunca chegou a ter opinião feita sobre o que eu lhe falava. Eu tinha 17 anos, cabelos compridos e ideias curtas sobre o tamanho do desafio a enfrentar. Na verdade, eu era pura vontade. Nenhuma reflexão. Se pensasse um pouco, nunca teria saído. A ignorância inicial foi o meu passaporte para a aventura assim como, segundo Walter Benjamin, os gregos foram obrigados a produzir objetos eternos por falta de condições técnicas de produção de cópias.

      Na maior parte do tempo eu me contentava em deixar o tempo passar, sem me dar conta que ele passava alheio à minha vontade. Um dia, desci da bicicleta, abracei Lobo e fui objetivo (era julho, fazia frio, tinha sol):

– Eu vou. Pode escrever.

      Prestes a botar o pé no mundo, eu brincava de bicicleta, conversava com meu cachorro e lia “O vermelho e o negro”, pego na biblioteca do colégio, para me inspirar em Julien Sorel. Se ele tinha “subido a Paris”, eu subiria a Porto Alegre. Até agosto, considerei o Rio de Janeiro como prioridade. Eu estava convencido de ter nascido para ser ator. Fazia teatro amador com os colegas de escola e não me via longe dos palcos. Acabei jornalista em Porto Alegre como um pequeno desvio de rota. Pretendo voltar ao teatro o mais rapidamente possível, de preferência antes dos 70 anos.

Providencial – Em setembro, meu primo Eleú, que morava em Porto Alegre, onde era operário, surgiu para me estender a mão. Tive uma conversa séria com Lobo. Só a bicicleta foi testemunha dessa importante confabulação.

– Vou e fico – eu disse.

      Lobo sacudiu o rabo. Latiu. Ele latia por qualquer coisa. Considerei que ele fazia objeções e tratei de explicar como as coisas se passariam:

– Vou passar algum trabalho, no começo, sei disso, mas não vou desistir. O importante é segurar no peito durante os primeiros meses. Depois, anda.

      Obtive um ganido, que tomei como um assentimento. A opinião do Lobo era importante para mim. Era meu companheiro desde quando eu tinha onze anos de idade. Havíamos crescido juntos. Enquanto eu me tornava adolescente, ele envelhecia. Sabia tudo de mim. Especialmente os meus temores, que eu preferia não compartilhar com os humanos por orgulho. O fim de ano chegou. A partida foi em 1º de janeiro de 1980. Uma data fácil de guardar e redondinha para a crônica dos acontecimentos. Fiz 18 anos em 29 de janeiro daquele ano. Era o meu primeiro mês na enorme capital gaúcha. O Rio de Janeiro só não era uma miragem por que eu veria o carnaval daquele ano inteirinho na televisão, até o amanhecer. O ator começava a adormecer.

      As despedidas foram difíceis, mas otimistas. Só Lobo e minha bicicleta não se mostraram entusiasmados. Todos me apoiaram com palavras, algum dinheiro e abraços muito apertados e preocupados. A minha mala era tão velhinha, praticamente aposentada para grandes viagens, mas era o que tínhamos para aquele momento. Já contei em outros momentos como se deu tudo isso. Enfim, de como acho que vi as coisas acontecerem. Nunca me permiti, que eu me lembre, narrar a despedida da bicicleta e do Lobo. Ela ficou encostada na parede da casa, pois não havia qualquer proteção, tomando chuva e enferrujando. Acho que esperava a minha volta. Não voltei.

      Lobo mostrou-se completamente indiferente. Não latiu nem ganiu. Também não abanou ou rabo em sinal de apoio. Tomei aquilo como despeito. Se não vinha comigo, não me desejava sorte. Senti falta dele nos primeiros tempos. Só retornei um ano depois. Ele já estava morto. Foi envenenado. Lamento não ter uma só foto dele. Ontem, fiz 59 anos de idade. Há 41 anos, deixei a minha bicicleta e o meu cachorro e meti o pé na estrada. Talvez por isso eu pedale tão pouco e nunca mais tenha tido um cão. Sigo caminhando. Às vezes, sonho que volto e eles estão lá para me receber. No fundo, nunca deixei de ser o guri que pedalava e brincava com o seu Lobo.