Conto: um sacrifício

Conto: um sacrifício

Escolhas de vida

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    Nem fazia questão de contar a história. Ficava meio de lado quando lhe pediam para desembuchar tudo de novo. Não sabia enfeitar a narrativa. Largava tudo como lhe vinha e tudo lhe vinha sempre do mesmo jeito, na mesma ordem, com a mesma vontade de chorar. Por que tanto queriam ouvir o que ainda lhe causava sofrimento? Era o que era, um guri da campanha na cidade e da cidade na campanha, sempre fora de lugar, “guascão” entre os urbanos, “maturrango” nas lides campeiras, pobre no meio dos ricos, desbocado, imprevisível. Que queriam dele? Vinha de longe, embora de tão perto, neto de um fazendeiro decadente, filho de um gaúcho a pé, com o pampa na alma e alma cheia de remendos.
    Se pediam que contasse, contava, ora. Podia espichar a história, mas não o fazia. Para que se dar o trabalho de entreter quem não podia entendê-lo? Que podiam saber de banhos de lagoa, pitanga madura, anoitecer no pago e outras imagens que trazia impressas no coração? Era tudo passado, coisas de antanho, de um tempo sepultado pelo progresso, que é como chamam aquilo que enterra sentimentos e máquinas, como a vermelha de debulhar milho. Vivia dessa nostalgia que precisava tratar com terapia e remédios ainda que “se risse”, era assim que falava por defeito de memória, desses cuidados todos com a sua saúde mental. Se era meio louco, qual o problema? Seria uma loucura mansa, de brincar de gado com sabugo de milho, nada mais!
    Às vezes, alguém lhe dizia para escrever um livro com a sua história. Se ria de novo. Quem ia ler uma coisa dessas? Afinal, o que lhe acontecera? Nada muito especial. Quando não havia mais o que comer, carneado o último capão, foram morar na periferia da cidade. Família grande, pai, mãe, cinco filhos e um peão agregado, Seu Nico, que não tiveram coragem de abandonar. Ali iriam de changa em changa até o desespero, depois de vendidos os arreios guardados de lembrança e até as botas de estimação herdadas do avô. Cada anoitecer era luz que se apagava na memória dos anos felizes. Cada amanhecer era uma esperança de luz no horizonte. A vida era uma fotografia num binóculo, tão pequena lá no fundo, tão nítida, porém, na eternidade fixada.
    Podia contar os sofrimentos da mãe, as tristezas do seu pai, os irmãos se extraviando como filhotes de perdiz pelo mundo, os silêncios do Seu Nico, enfronhado no seu mutismo, até cair de lado e morrer junto ao seu único bem, um pelego vermelho. Podia contar tudo isso. Não o fazia. Teria de chorar na frente de quem estivesse ouvindo. Não tinha vergonha de chorar. Temia era perder o fio da história e quem sabe não se achar mais na vida, que era relembrar esse passado.
Hora da verdade – Por que o faziam remexer no passado? Estava velho e sem memória. Por que lembrava de algo que já devia ter esquecido depois de tantos anos, tanta vida, tantas viagens, tantas voltas? Era primavera, já haviam vendido aos vizinhos complacentes os últimos copos de vidro, até um de massa de tomate. A manhã era de um frescor de mato, a luz filtrava entre as folhas dos cinamomos do vizinho, que o deles já tinha sido derrubado e transformado em lenha, quando o pai o chamara para uma conversa que nunca se apagaria do seu coração.
– Faz o que te mandei.
– Mas pai...
– Faz agora.
    A causa era justa. Todos se sacrificavam. Por que ele seria poupado? A sua contribuição para a casa era nula. Havia sido escolhido para estudar com uma bolsa conseguida por um vereador aliado da ditadura que aparecia para lembrar dos votos que lhe deviam e que, como única vingança contra o destino, não davam, embora jurassem que sim. Pediam que contasse melhor essa parte. Explicava enfastiado que o seu papel era garantir possivelmente um futuro para quem via o presente sumir como a água da sanga nos tempos de seca braba. Doía-lhe saber que não era bom aluno e que sonhava mesmo era ser domador.
– Vai lá.
– Mas pai...
– Agora.
    Foi. Preferia que o pai lhe pedisse para largar a escola. Não era isso. Mesmo analfabeto, ou talvez por isso, ele só acreditava nos estudos para melhorar a vida da família. Queria um filho doutor. Então naquele dia florido, ensolarado, fresco, suave, o que nada acrescentava à história, mas era verdade e por ser verdade não podia faltar no relato, fez o que era preciso: vendeu a bicicleta velha que ganhara do filho de um fazendeiro e que usava para vencer os doze quilômetros, com sol ou chuva, até a escola, que a mãe não o deixava faltar. A separação foi como a de um ente querido. Contava de novo.
– Tchê, que história, chorava por uma bicicleta! – dizia um.
– O amor da tua vida – emendava outro.
– Como pode, um velho advogado não esquecer essa pieguice.
    Ele “se ria”, expressão que nem o diploma cancelou, pesaroso. Os outros riam com gosto do seu ar desenxabido. Alguém já o provocava:
– Conta de novo, vai.
    Foi por essa época que comprou um pelego vermelho.

 


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895