Juremir Machado da Silva

Contra o Nobel de Dylan

Por Eron Duarte Fagundes

 

Admiro a música de Bob Dylan. Gosto muito de ouvi-lo tocar e cantar. É sempre um deslumbramento. Mas, agora que o Nobel, um tanto enfraquecido nesta época em que a literatura vai saindo de cena, resolveu faturar alguma fama em cima da popularidade de Dylan, devo dizer, honestamente, que sua literatura não existe. Há quem conteste, o que sempre me parece muito bom: a contestação. Me dizem que letra duma canção pode ser poesia. Juremir Machado da Silva, que curtiu a indicação de Dylan para o Nobel de Literatura, afirmando que estava ali uma quebra de moldura (e, de fato, estava), anotou: “A literatura saltou das páginas dos livros para as ruas, discos e outros suportes.” E acresceu: “A poesia de Dylan aparece em cada uma de suas composições.”

Em sentido amplo, isto faz sentido: Dylan é um poeta da música; lembro que ele já foi comparado ao francês Arthur Rimbaud, o que literariamente é um exagero, mesmo que ambos sejam gênios, cada um em seu meio (quem não viu, deve procurar ver o extraordinário documentário que o diretor de cinema americano Martin Scorsese rodou sobre Dylan, No direction home Bob Dylan, 2005). Mas neste sentido amplo de poesia eu poderia incluir um quadro, uma sinfonia, um filme. Os roteiros do sueco Ingmar Bergman, por mais profundidade literária que tenham, fazem do cineasta um escritor? Ou se poderia aqui lembrar que tais roteiros só fazem mesmo um sentido pleno dentro do filme? É cinema: não literatura. Apesar das semelhanças. Como a canção de Dylan: a palavra numa canção é a mesma que vemos no corpo dum texto? Eu ainda prefiro o sentido estrito de poesia para lhe dar a alçada literária: tem de estar na página escrita, que pode ser até uma página de computador. Como escrita, eu não equipararia Dylan a Rimbaud; mas os textos de Dylan buscam seu notável sentido na voz e nos instrumentos musicais, aí é que a coisa é mesmo maravilhosa e nada deve a Rimbaud.

A escritora caxiense Alessandra Rech, um dos melhores textos do Brasil de hoje, autora dum luminoso ensaio sobre Guimarães Rosa, Na entrada-das-águas; amor e liberdade em Guimarães Rosa (2010), editada pela editora da Universidade de Caxias do Sul, anotou em seu perfil no facebook: “Dar o Nobel de Literatura a Dylan é demonstrar mais uma vez a desconexão do nosso tempo com o livro. Há reconhecimento de sobra para a produção musical.” Estou mais próximo disto: Dylan é músico; se é escritor, é bem pequeno.

Marcelo Miranda, crítico de cinema de Belo Horizonte, postou algo comemorando o Nobel de Dylan. Fiz um comentário simples à sua postagem: eu não daria o Nobel de Literatura a Dylan, lhe daria o Nobel de Música. Marcelo respondeu: “Rapaz, o Bob Dylan é tão acima de qualquer coisa que não vejo sentido nesta discussão. Só posso ficar feliz que você não era da comissão do Nobel.” Fiquei intrigado com a expressão “tão acima de qualquer coisa” e lhe disse que ninguém, nem Dylan, está acima de qualquer coisa. Ele me retrucou: “eu acho que alguns seres (bem poucos) estão acima sim.” Então é isto: Dylan é para os que o idolatram como Jesus Cristo para os cristãos, uma discussão que o questione (como esta, muito singela, de propor pensar sobre o que é e o que não é literatura, seja lá qual for a conclusão a que se chegue) é herética.

Mas inevitavelmente reconheço a importância da nomeação de Dylan para o Nobel de Literatura, ainda que, todos sabemos, esta nomeação (como se fosse um cargo administrativo) seja uma jogada macropublicitária para a Academia Sueca nestes tempos defasados: discutir o que é a natureza da literatura nos dias de hoje, até mesmo para discutir se isto de fato interessa ainda.