Juremir Machado da Silva

Contraponto de Ivo Lessa aos meus textos sobre o código florestal

Contraponto de Ivo Lessa aos meus textos sobre o código florestal

Juremir.

Embora não concordando com muitas de suas posições, em uma dou o braço a torcer: Temos que aceitar que nosso opositor é inteligente e somente com mais inteligência poderei superá-lo. Em anexo, um texto sobre o assunto, se for possível gostaria de ver publicado em sua coluna como contraponto.

Pobre Edgard!!!
Infelizmente, mais uma vez, somos levados pela mídia a recebermos informações equivocadas na sua essência. Lendo o artigo do Sr. Juremir Machado da Silva, citando Edgard Morin, desta forma irresponsável, é sim um desacato ao pensamento e à obra de um mestre. Ora, é Edgard Morin, na sua obra os Sete Saberes quem cita, com todas as letras, a necessidade da Educação no século XXI trazer de volta a relação entre o todo e as partes. O século XX fragmentou os conhecimentos, transformado–os em informações desconexas como esta, abordada no artigo a Lei da Selva, do dia 9 de julho. Abordar um tema como este, sobre as mudanças do Código Florestal(de 1965), colocando nas costas de um setor que produz, a culpa de todos os males, ou atribuir a trabalhadores uma conduta criminosa, pois o artigo generaliza, é desconhecer por completo a história do Brasil, tanto colonial quanto contemporânea. Pois é, justamente Edgard Morin que traz para a discussão o complexo da crise planetária, mostrando que todos os seres humanos confrontados de agora em diante aos mesmos problemas de vida e de morte, partilham um destino comum. Trocando em miúdos: não é mais possível condenarmos pessoas, ações, sociedades, grupos, colocarmos seres humanos uns contra os outros diante de problemas que são comuns a todos. Todos sabemos, ruralistas ou não, urbanos e rurais, que preservar a natureza depende da ação primeiro de consciência de cada um e depois da consciência coletiva. Não se pode mais passar impune a este discurso retrógrado, antigo, obsoleto, atribuindo culpas, agredindo cidadãos. Pra quem desconhece a história do Rio Grande do Sul, pra quem desconhece a história da construção de conhecimento, a história de agregar pessoas através de reuniões em todo o interior do RS nos últimos dois anos, colocando os problemas de forma clara, ajustando situações, ouvindo pontos de vista, os mais variados, e ler um artigo que simplesmente acusa, como se fosse o dono da verdade, é causar um desserviço à sociedade.
Meu caro senhor, aconselho que, antes de usar o nome de um dos grandes pensadores de um mundo melhor, de um mundo em que a Educação é fator fundamental, porque é dela que surge o conhecimento, ou é dela que difundimos, buscamos e trocamos conhecimento, porque conhecimento pressupõe cultura, história, leitura, vivência, experiência, não exponha seus pensamentos num veículo da mídia de forma tão irresponsável. Dá-nos a nítida impressão de que lhe falta leitura e que este discurso é aquele antigo, do século passado, onde todos sempre dizem as mesmas coisas do mesmo jeito. Chegou o momento de pensarmos juntos, de agregarmos forças, não é possível imaginar que quem vive da natureza e dela tira seu sustento, queira acabar com o seu meio de subsistência, seu ambiente de trabalho e de vida. Quem alimenta, quem produz o que comemos, de forma saudável e sustentável não pode ser tratado como criminoso. Volte aos anos 70 e pesquise sobre o milagre brasileiro, talvez encontre as respostas. Quanto ao desmatamento criminoso, grileiros, queimadas, no Norte, Centro-oeste, estes sim, devem ser penalizados, mas não através desta legislação e sim do Código Penal.
Preservar a natureza faz parte, hoje, do vocabulário e das ações de qualquer produtor, pequeno, médio ou grande, aliás, divisão essa que não mais existe no Rio Grande do Sul, mais uma vitória e um ensinamento dos produtores rurais que entenderam que produção de alimentos independe do tamanho da propriedade.
Faço-lhe um convite. Vamos ao interior do RS como eu fui, participe de reuniões, conheça mais da história de cada região, dos imigrantes, da vida do dia a dia de um produtor e na volta, o Sr poderá fazer um juízo de valor, mas jamais acusar uma classe que põe a comida que cada um de nós consome, que cuida da água que chega limpa à cidade e que aqui sim é poluída pelo lixo e pelo esgoto, e que faz com que milhares de pessoas se desloquem aos finais de semana para um sítio para respirar um pouquinho de ar puro, para pescar, descansar. Depois, voltamos a discutir os Sete Saberes de Edgard Morin, porque, pelo visto, o Sr desconhece, principalmente o da Ética do ser humano: “todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana”.Edgar Morin.
Aos leitores: não absorvam apenas informações, busquem as causas, a origem dos fatos, garanto-lhes que a percepção das partes e do todo será bem diferente daquela que as informações tendenciosas insistem em que acreditemos.
Para finalizar, quando dizemos que o assunto é complexo devemos entender o que é complexo, que vem do latim - complexus, tecido junto, portanto, não há com fragmentar um assunto deste porte em partes, de forma tão simplória. As questões do meio ambiente ultrapassam as nossas fronteiras e se mesclam com a história mundial e muito mais, com a economia do mundo, na produção de energia para aqueles que já destruíram a sua parte e nos transformam, mais uma vez, em uma colônia, reféns das necessidades do viver bem do primeiro mundo e de nos sentirmos culpados pela destruição da Mãe Natureza.
Não sejamos ingênuos.
Ivo Lessa
Engenheiro Agrônomo