Juremir Machado da Silva

Convite para sessão de autógrafos

 Tenho abusado da paciência dos meus 27 leitores (sim, houve um vertiginoso crescimento de dez leitores em 15 anos). Abuso (certamente serei atingido pela lei do Requião) de três maneiras: convido-os incessantemente para lançamentos de livros que escrevo sem parar (deveria ser proibido pelo bem das florestas); ocupo este generoso espaço falando de minhas obras sem importância (tenho, ao menos, imagino, a qualidade da transparência, salvo se for apenas cara de pau); submeto os que se rendem a me pedir autógrafos, o que só deveria ser feito por gente do quilate de Vargas Llosa ou Michel Houellebecq.

Que a pessoa saia de casa para pedir um autógrafo a Bob Dylan eu compreendo, ainda mais tendo de meter a mão no bolso. Não a mim. Só posso ser um caso grave de megalomania ou de falta de vergonha na cara. Penso, às vezes, que faço parte daquele grupo de inconscientes, que faz o que faz por não saber que não pode fazer. O problema é que sei e, ainda assim, faço. Agravante. Nas mãos de Sérgio Moro eu não teria a menor chance. Este tipo de confissão me traz muitos prejuízos. Ouvirei de pessoas de bom senso um conselho obviamente sensato:

– Não fica te depreciando em público.

Especialistas em marketing pessoal, em coaching, tentariam me convencer a não praticar este tipo de propaganda negativa. Não me convenceriam. Tenho um compromisso indestrutível com a verdade. Jamais contrataria um cara desses para me dizer o que já sei. Pois é, estou de novo na área. Hoje, a partir das 19h30, no bar Cantante (Fernandes Vieira, 615), autografo meu novo livro, “Diferença e descobrimento, o que é o imaginário? – A hipótese do excedente de significação” (Sulina). Meus 27 leitores podem ficar tranquilos que só faltam dois livros em 2017. Tento me modernizar. Atuo fortemente nas redes sociais. Tenho canal no youtube, conta no facebook e no twitter. Neste, empaquei nos 25 mil seguidores. Até Candoca, o maior filósofo de Palomas, já me ultrapassou. Meu novo livro está em promoção no Correio do Povo. Parece que quatro pessoas já pensaram em comprá-lo.

Pensei que políticos poderiam se interessar por meus livros. Fiz uma estatística. Já tive três deles num mesmo lançamento. Não consigo imaginar o que os políticos têm contra mim? Eu os trato tão bem. Se não faço mais é por causa da Lava Jato e dos seus delatores. Que culpa tenho eu se os caras não param de dar com a língua nos dentes? Por outro lado, busco escrever livros com alguma utilidade. Já tentei ensinar a ser feliz, mas, por infelicidade, ninguém seguiu os meus ensinamentos, que citavam gregos antigos como os “intelectuais” de sucesso do centro do país, mas não deixavam de se ocupar da política nacional. Deve ter sido esse problema: me faltou neutralidade. Putz!

Meu livro pode não fazer sucesso, mas explica o que faz: o coeficiente de diferença e descobrimento (revelação) de uma obra. Se minhas reflexões não agradarem, posso garantir que as citações são boas. O vinho, a cerveja e o uísque do bar também. Não tem erro.

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