Juremir Machado da Silva

Coração mais ou menos louco

Coração mais ou menos louco

Eu adoro os críticos de cinema.
Eles dizem coisas sobre os filmes que eu raramente percebo. Enxergam o que quase nunca vejo.
Transformam o banal em fantástico.
Deliram.
Fui ver “Coração louco”, com Jeff Bridges no papel principal, um cantor decadente de música country.
Li críticas antes e depois de ver o filme.
Uma delas, muito bem escrita por sinal, de Marcelo Forlani, garante que “todo o drama é encarnado em cada pelo branco da barba de Jeff Bridges”.
Não vi nada disso.
Praticamente nem notei a barba branca do Jeff.
Sou um péssimo observador de barbas brancas.
Vi um bom filme, bastante linear, repleto de clichês, a começar pelos grandes espaços vazios americanos, sempre impressionantes para espectadores estrangeiros, que conta a história de um cantor alcoólatra, vagando pelos Estados Unidos como um cão sem dono, fazendo shows baratos, trepando com mulheres mais ou menos interessantes ou bêbadas e, finalmente, apaixonando-se por uma gata e decidindo recuperar-se.
Bad Blake é o caubói pós-moderno, com seu violão, sua camionete, seu whisky, sua solidão e suas ressacas.
Desce a ladeira da vida.
Tudo rapidinho.
Direto.
Uma verdadeira propaganda dos Alcoólicos Anônimos.
Com direito a mensagem positiva, arrependimentos, novos erros, perdas irreparáveis e grandes vomitadas.
Nada de novo na tela.
Mais um filme sobre o herói decadente, o artista em crise de inspiração, a força do amor, a guerra de vaidades, os altos e baixos da carreira de um músico e as esperanças e desesperanças de uma jovem sonhadora.
Talvez tudo já tenha sido contado.
Não deve existir história nova para um filme.
Ainda assim é melhor do que ver a novela das oito.
Ao menos, disse-me um amigo, esse filme vai direto ao ponto, sem muita enrolação. Sabe-se desde o começo que o cara vai beber, cantar, trepar, vomitar, apaixonar-se, beber de novo, perder o filho da namorada num centro comercial, ficar apavorado e buscar ajuda para safar-se.
Um belo material de divulgação para o extraordinário trabalho realizado em todos os lugares pelos AA.
Marcelo Forlani conclui: “Some isso ao apaixonante charme de Maggie Gyllenhaal e você certamente entenderá porque o filme vai continuar ecoando em sua mente tão forte quanto a música sai do violão de Bad Blake”.
Na minha cabeça não ecoa mais coisa alguma.
Salvo um resto de vinho tinto.
Acho que o filme vai fazer um sucesso danado no interior de São Paulo. Aqueles chapéus e botas do Jeff Bridges e do seu pupilo com rabinho-de-cavalo e brinquinho vão reacender o fogo jamais extinto dos nossos caubóis caipiras. É o country politicamente correto.
Um filme mediano, convencional, certinho, clarinho, com uma única história, ótimo para sábado à noite em família. Ainda mais que transmite bons valores.
Jeff Bridges levou o Oscar de melhor ator de 2010 por sua interpretação em “Coração louco”. Previsível.
Hollywood não surpreende mais ninguém.
A pizza estava excelente.
Ah, desculpem, era picanha na tábua.