Juremir Machado da Silva

Cores de uma vida

Ode à luz e ao sol

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Em Paris, eu odiava o cinza, o teto baixo do céu, no inverno, que podia durar mais de 20 dias. Passei onze invernos seguidos na Europa, o primeiro deles na gelada Berlim. Mesmo quando não morava no Velho Mundo, ia para lá em janeiro e fevereiro. Aos poucos, meu corpo passou a rejeitar de tal forma o frio que minhas viagens se tornaram impossíveis. Troquei a Europa pelo nordeste brasileiro ou por países quentes. Durante 28 anos, pisei na Europa. Pretendia completar 30 anos sem interrupção. A pandemia cortou meu barato. Junho, meu mês ideal para idas à França, passou. Neste ano de clausura não haverá viagens.

Agora, olho o cinza pela janela da minha casa como quem coleciona fagulhas, espasmos de luz, reflexos diminutos de tudo aquilo que possa indicar um retorno da claridade em meio à placidez implacável do gris. Vejo as ruas do Bom Fim cobertas por uma napa de melancolia e de resignação. As janelas dos prédios parecem olhos fechados para a paisagem. Hibernamos compulsoriamente. Para me animar, repito um trecho da famosa canção de Beto Guedes: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...” É o maior consolo diante da rigidez do inverno. Não bebo vinho e, apesar de admirar a beleza do fogo na lareira, não me entusiasmo com esse argumento para justificar o valor do frio. Gosto mais da nudez do verão, dos suores, da vida pulsando forte, quase selvagem, incontida, de janelas escancaradas.

Outro consolo é a poesia. Um caleidoscópio de imagens que podem ser brutas, rudes, cruéis ou evocativas de cenas guardadas na parede da retina com carinho ou espanto. Tenho avisado aos pretensos donos do campo que cheguei para ficar. Melhor, voltei para me instalar. Não reconheço proprietários nem juízes autodesignados. A poesia é de todos. Como escreveu Cesar Vallejo, um dos meus poetas prediletos, “a primavera volta, volta e partirá”. Nós é que um dia partiremos para não voltar. Enquanto a solidão eterna não chega, inventamos simbolismos, entre os quais o da arte, para povoar de sentidos a passagem do tempo. Arte e religião têm uma raiz comum: a comunhão de significados intemporais. Uma real necessidade de transcendência. Entre corpo e alma, oscilamos sempre à procura de uma certeza.

 

*

 

Um gato negro ronronava nos trilhos,

Lânguido e soberano como um vaso,

Patos azuis faiscavam na lâmina d’água,

Nuvens roliças se atropelavam confusas,

Desesperadas com a iminência da chuva,

No Alto Grande rugia o vermelho da terra,

A linha férrea suicidava-se no horizonte de aço,

Um homem tangia melancólico os seus filhos,

Casas ocres sugavam a luz senil do outono,

A tarde escorria como a cera num candelabro,

Eu debulhava a vida em continhas coloridas.