Juremir Machado da Silva

Correio do Povo engajado

Correio do Povo engajado

Fundos para o Brasil novo

Alguém aí se imagina passando na sede do seu jornal favorito para contribuir com uma revolução? As campanhas de antigamente eram bem menos inocentes do que as de hoje. Sem uma boa dose de burocracia e de senso de oportunidade, não se dá o primeiro tiro nem se chega ao poder. Na hora da verdade, um jornal deveria saber se posicionar e ter atitudes convincentes. Em “1930: águas da revolução”, mostro como o Correio do Povo tomou o partido do movimento comandado por Getúlio Vargas. Lançou até uma campanha para arrecadar fundos para o Brasil novo. A ideia era que Vargas não poderia assumir o poder no Rio de Janeiro com os cofres depauperados. Cada um deveria dar o seu quinhão para a reconstrução nacional.
Aconteceu nestes termos: “O Correio do Povo busca fundos para a revolução. Campanha de arrecadação: ‘Se cada brasileiro contribuísse com 1 mil reis ouro para a Nova República, a Revolução Brasileira teria colimado definitivamente as suas generosas finalidades, facilitando ao Sr. Getúlio Vargas a sua obra magnífica, mas árdua, de reconstrução e consolidação de uma pátria prospera e feliz”. Viram só? Detalhes: “A campanha irá até 31 de dezembro. Justificativa: ‘O governo de Getúlio Vargas vai encontrar em situação de verdadeira descalabro o erário nacional, dilapidado por um política de nepotismo e proteções inconfessáveis corre por, isso, a cada cidadão, o direito patriótico de auxiliá-lo no trabalho magnífico, mas árduo de construir a Pátria Nova. [... Recebemos as 1ª. contribuições espontâneas e patrocinando a patriótica iniciativa o Correio do Povo lança um apelo a todos os brasileiros no sentido de concorrerem com o seu mil réis ouro para o advento definitivo da nova República”. O chamado foi atendido.
Uma boa campanha não pode ser fugaz nem tímida. O jornal persiste, cerca o leitor, estimula-o: “O Correio do Povo continua a sua campanha do ‘Mil Réis Ouro para a Pátria Nova’. Pode-se contribuir no ‘guichê especial’ da gerência do jornal, em Porto Alegre. O interior do Estado adere com entusiasmo ao projeto de arrecadação por um “Brasil próspero e feliz”. O jornal exultará ao chegar, em 16 de dezembro, aos 128:855$830’ .Razão maior: romper os vínculos que ainda ligam a República de 3 de outubro a República dos oligarcas”. Em 25 de outubro de 1930, um dia depois da queda de Washington Luís, o Correio do Povo exultará na sua manchete principal: “Pátria! Pátria! Desde ontem estás redimida da tirania que te humilhava”.
Uma junta assume o governo. Nem tudo está definido: “O chefe revolucionário inquieta-se. Por que chove tanto? São as águas da revolução de outubro. Há boatos de que a Junta pretende ficar no poder. Troca telegramas com Osvaldo Aranha. Dialoga com Góis Monteiro. Decidem manter a ofensiva contra os paulistas. Lembra-se de que em agosto de 1929, na Câmara de Deputados, João Neves assustara os colegas ao falar em resolver pelas armas o que não se podia resolver pelo voto. Está na hora”.