Juremir Machado da Silva

CP dá aula de democracia

CP dá aula de democracia

Comentário do diretor de Redação do Correio do Povo, Telmo Flor, a textos meus:
"Andei pensando cá comigo. Essa tua campanha pela eleição das pessoas mais votadas é uma faca de dois legumes. É claro que situações como a da Luciana fazem a gente pensar, mas vamos imaginar as consequências da "pessoalização" da política: só para simplificar, peguemos dois partidos existentes e um universo de, digamos, três milhões de votos. Supondo que o PT possua a simpatia de dois terços do eleitorado e um sujeito como o Olívio queira concorrer. O eleitor petista quer escolher um candidato e tasca no Olívio e, como é razoável imaginar, ele obtenha 1,5 milhão de votos, sendo os outros 500 mil votos distribuídos entre os demais 10 candidatos do partido, ou seja, 50 mil para cada um. Aí chega o PSDB, com os mesmos 11 candidatos, mas nenhum de destaque, e conquiste os outros 1 milhão de votos, divididos entre eles, com votações entre 51 mil e 120 mil votos. Resultado: 1 petista eleito, mesmo com a simpatia de dois terços do eleitorado, e 11 tucanos eleitos, com apenas um terço do eleitorado. Haveria justiça na representação ideológica no Parlamento com 11 tucanos a 1 petista? Ou a ideologia morreu mesmo? De que lado você está, afinal (eheheheh).
Os partidos teriam que impedir, na marra, que os bons de voto concorressem, pois matariam os outros. Se alguém se destacasse, teriam que lutar para que os votos dele se transferissem para os outros.
É claro que o sistema atual acaba beneficiando os Tiriricas, mas uma "pessoalização" acabaria beneficiando só os meio-termo, os não-fede-nem-cheira, os mais-ou-menos.
Solução para atender teus desejos: voto distrital puro, que tem o risco de transformar todos os deputados em vereadores de luxo, mas, pelo menos, o voto não cai no colo de quem não foi votado. Se este é o valor mais importante numa democracia, então, façamos assim.
Eu, que concordo com as tuas avaliações anteriores, continuo achando que a representação das ideologias também merece espaço privilegiado numa democracia. O voto pessoal não pode escravizar outros fatores importantes (respeito às minorias, respeito às instituições, liberdade de expressão, etc.) O voto é só um dos componentes.
Ou seja: é complicado mesmo.
Telmo"

Minha resposta:
Caro Telmo: tens razão, há um paradoxo mesmo. Eu sou a favor do voto distrital puro ou não. Se os mais votados fossem eleitos e pronto, por outro lado, talvez diminuísse a espetacularização na medida em que deixaria de ser interessante atrair celebridades só para puxar votos. O sistema atual, de defesa das minorias, está eliminando as minorias. Afinal, um partido marginal como o PSOL pode ter, como tem, uma candidata muito bem votada, mas que, como não alcança o coeficiente, fica fora. Minoria para entrar precisa forjar uma maioria através de coligações. A pureza ideológica, certa ou errada, é punida. Belo debate. Abraços, Juremir