Juremir Machado da Silva

Crônica e política

Crônica e política


Um cronista objetivo nunca deveria escrever “eu”. Mas um cronista nunca é objetivo. Todo cronista é um falsário em potencial. Portanto, “eu” passei a semana preocupado com três coisas: um romance de Adam Thirlwell; a briga entre Brasil e Argentina (Inter e Estudiantes); saber se é um ato moral sair de algum lugar com o guarda-chuva de outra pessoa por incapacidade de identificar o próprio no meio de uma infinidade de objetos iguais e perfeitamente intercambiáveis na mesma função. Desde que a função de um guarda-chuva seja a de proteger da chuva. Sabe-se que alguns tratam um guarda-chuva como objeto de estimação, tem afeto por ele e aí a questão pode ganhar uma dimensão metafísica ou romântica.
O romance de Thirlwell chama-se “Política” e não trata de política, mas de um ménage à trois, da higiene do presidente Mao, do egoísmo da rainha mãe, de Stalin ao telefone, do fim de Casablanca e da teoria da hegemonia de Antonio Gramsci. O livro apresenta questões cruciais como estas: “Como dormir a três numa cama de casal?”, “é educado ler enquanto duas pessoas fazem amor ao seu lado?” ou “é elegante sentir ciúme?” Thirlwell pretende ter escrito um romance universal. Deliciosamente inglês. Como todos sabem, o universal já foi inglês. Depois, ganhou o nome de globalização e tornou-se norte-americano.
Certo é que enquanto a classe média globalizada ainda lê as reflexões estratosférica de Paulo Coelho, dos vampiros e de Dan Brown, uma penca de escritores geniais enterra a idéia nostálgica do que o melhor da literatura ficou para trás. Michel Houellebecq, Chuck Palahniuk, Colum McCann, Fred Vargas e o próprio Thirlwell provam que criatividade não é monopólio da modernidade. Depois, vem um segundo time, liderado por Paul Auster. O desempenho do Brasil na literatura mundial de qualidade é semelhante ao nosso número de medalhas nas Olimpíadas ou, segundo os mais ponderados, equivalente ao nosso papel internacional nas competições de beisebol. Não se deve levar essa afirmação muito a sério, pois pode esconder algum ressentimento ou um tanto de afetação.
O essencial do livro de Thirlwell é uma nova leitura do final de Casablanca. Quem tem mais de 40 anos quase com certeza ouviu falar desse filme em que Bogart “generosamente” estimula a linda amante, Ingrid Bergman, a embarcar num avião com o marido. Quem tem de 50 anos a 100 anos, certamente chorou com essa cena. Quem tem menos de 30 anos, chorou com a Xuxa. Afinal, por que sofremos ao ver Ingrid Bergman abandonar um medíocre dono de bar para expatriados, no Marrocos, para ir embora com seu marido Victor Laszlo, um corajoso judeu resistente tcheco? A hipótese de Thirlwell é de que não se trata de um fim trágico como juram os românticos, mas de um fim alegre. Um fim moral. Ainda que os mais moralistas sejam paradoxalmente os românticos. Não se deve crer no cinema.
Caso a hipótese de Thirlwell não pareça convincente, o seu romance permanece útil, pois traz um alívio para quem sofre de ejaculação precoce: os surrealistas, conforme eles mesmos declararam, gozavam numa velocidade incomparável. Exemplos. André Breton: 2 minutos e 20 segundos. O cara foi o papa do surrealismo! Raymond Queneau, um grande romancista: menos de um minuto. Benjamin Péret: entre as carícias preliminares e o gozo, ou seja, a relação sexual completa: em torno de cinco minutos. Observem o quanto o livro de um jovem pode ser decisivo para a vida das pessoas no mundo inteiro. O leitor aprende brincando (pedagogia lúdica), participa (interatividade que, neste caso, não detalharemos por pudor) e tira proveito (utilidade irrefutável).
Fica sexualmente mais feliz (auto-ajuda).