Crônica: inventários da solidão
capa

Crônica: inventários da solidão

O homem em tempos sombrios

publicidade

João acorda no meio da noite, vai ao banheiro, contempla as gotas que pingam com dificuldade e faz o balanço da sua vida: tem um romance incompleto, dois divórcios, nenhum filho, três pontes de safena, as lembranças do último título nacional do Inter, 30 anos de contribuição para o INSS, que terão de se transformar em 40, 57 anos de idade, uma bicicleta que nunca usa e nenhuma utopia. Ao longo da travessia, bebeu bons vinhos, longe de serem os melhores, e escreveu cartas para os jornais, até ser tragado pela angústia que o tornaria abstêmio e comentarista de redes sociais. Nas horas vagas, contempla a lua em busca dos sinais da Guerra Fria. Toma Rivotril e escreve poemas metafísicos.

      Vizinhos desconfiam do seu comportamento bizarro, especialmente quando passa tardes ouvindo músicas esquisitas como “Mandarim maravilhoso”, de Bartók, ou “Partita nº 2’, de Bach. Tem pensado em morar em Portugal, mas o medo das viagens de avião o retém. Já pensou em ir de navio. O problema é que o uso de Dramin para enjoo dá-lhe muito sono e queda de pressão. Além disso, a gestão esquerdista de Portugal não o entusiasma, apesar dos propalados bons resultados. No passado, João queria superar as suas contradições. Atualmente, às portas da terceira idade, hesita entre um VGBL, talvez excessivamente tardio, um CDB ultraconservador e pouco rentável ou um salto no escuro: a mineração de bitcoins, algo que lhe parece tão provável quanto vir a mudar de sexo.

      João define-se com um homem de bem, com alguns bens, de bom senso, que confunde com o senso comum, e de centro: não votou em Bolsonaro, tampouco em Fernando Haddad. O seu candidato era Ciro Gomes. No segundo turno, viajou ao interior para ficar dispensado de escolher. Faz regularmente exame de próstata, evita gorduras, não fuma e caminha do quarto ao banheiro todas os dias e noites. Não é muito. É o que tem a se oferecer. Promete caminhar mais a partir da próxima segunda-feira. Planeja comprar um sítio, uma casa na praia ou um abrir uma livraria com café, o que for menos perigoso para o pouco dinheiro que conseguiu poupar. Pretende reler Joyce de cabo a rabo, ao menos algumas páginas da “Divina comédia” e os programas inteiros dos partidos políticos brasileiros antes das eleições. Ainda defende Sergio Moro e Deltan Dallagnol, embora, apesar de negar, tenha ficado um pouco abalado com as revelações do Intercept.

      Acorda no meio da noite e descobre uma tecla solta no computador. Faz dela uma metáfora da vida. Um pequeno desencaixe e tudo já não funciona como deveria. A narrativa descola-se da realidade. Os discursos não traduzem o vivido. O presidente vive numa dimensão paralela. Falta uma letra no relato. Olha pela janela e vê a cidade dormente. Há mais gente dormindo na rua do que nunca. Casas de plástico preto alastram-se nas calçadas. A moradora de uma delas parece ser a pessoas mais feliz do bairro, ou a única. Amanhece. Faz frio. É preciso tomar uma decisão: continuar na mesma trilha ou vergar-se ao sertanejo universitário?