Crônicas pessoais
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Crônicas pessoais

O mundo como reconstrução estética

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 Nas suas “Investigações filosóficas”, Ludwig Wittgenstein, um dos gênios do século XX, escreveu: “Não consideres óbvio, mas sim surpreendente que as imagens dos artistas e as narrativas dos poetas produzam prazer, que ponham o espírito em movimento”. Explicação: “Não consideres ‘óbvio’ significa: admira-te que assim seja, como te admiras de outras coisas que te inquietam. Então, o que é problemático desaparece, ao aceitares tanto uma coisa como a outra”. Mais: “Transição de uma manifesta falta de sentido para uma não-manifesta”.

      Minha paráfrase: não consideres óbvio, mas sim surpreendente que as imagens dos cronistas e as suas narrativas poéticas produzam prazer pondo o espírito em movimento. O cronista é o artista por excelência destes tempos de aceleração, inquietação e busca de sentido. A expressão de uma experiência pessoal ecoa em outras vidas. Talvez por isso as mulheres mais velhas sejam as melhores leitoras. Depois de passar parte da vida submetidas às inquietudes familiares e ao primado da utilidade elas como que se libertam para admirar e se admirar das coisas simples. Sabem que o extraordinário é uma saliência do ordinário. Sem ruptura, os homens continuam a cultivar o realismo.

      O espírito racional e utilitário, quando lê o nome de um Wittgenstein, empaca: “Que chato. Vou ter de saber mais sobre esse cara”. A mente livre para divagar toma outro caminho. Faz perguntas: o que ele entende por óbvio? O que significa admirar? Que inquietudes a arte consegue despertar com suas imagens? Para que serve a arte? Num salto, interpela-se o cronista nas suas andanças pelas ruas: para que serve a crônica? A resposta não pode ser mais simples: para movimentar o espírito. Vem outra pergunta: o que significa mesmo movimentar?

      Proponho dez possibilidades: inquietar, agitar, encantar, emocionar, enternecer, sacudir, confrontar, fazer refletir, distrair e desentorpecer. O leitor pode acrescentar quantos itens quiser a essa lista provisória. O cronista é um poeta prosador que se vale de tudo (ironia, humor, poesia, narrativas, argumentação, descrições de casos, inclusive pessoais) para atingir o seu objetivo: movimentar o espírito. Até hoje, tendo estado diante dela uma centena de vezes, eu me pergunto: o que a Mona Lisa movimenta no meu espírito? Outros quadros mexem mais com o meu espírito do que a célebre pintura de Leonardo da Vinci. Mas o famoso sorriso da Gioconda me provoca.

      Um leitor escreve para dizer que ficou impressionado com o número de leitores da minha coluna. É um elogio. Movimenta o meu espírito: por que ele se surpreende? Imaginava o contrário? Por que eu me incomodo? Por vaidade? Comento com uma amiga. Confesso meu horror ao que vejo como condescendência. Ela me consola: “É só falta de jeito mesmo”. Tem algo de terapêutico na crônica: faz pensar sobre a vida no cotidiano, sobre o cotidiano na vida, sobre as flores no jardim da nossa casa, sobre a passagem do tempo ou sobre o tempo que não passa. Só a crônica permite falar de Wittgenstein sem morrer asfixiado.