Croniqueta de inverno
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Croniqueta de inverno

O passado vive no presente sem qualquer lembrança


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      Havia bolinhas de gude coloridas refulgindo sob o sol de dezembro. O tempo passava rápido. Em breve, não haveria mais tempo. Os risos que explodiam como soluços não cabiam em corpos tão pequenos. Havia também o arroio, o mergulho, cada corpinho descrevendo uma linha em curva no ar e o barulho na água abrindo espaço para o desaparecimento momentâneo e triunfal. Nessa época, o futuro não fazia qualquer sentido, tanto que essa palavra nunca era pronunciada. O passado nem existia. O presente era perpétuo e denso como a vida. O que era, porém, a vida? Ninguém tinha a menor ideia da resposta. Muitos menos da pergunta. Viver era correr contra o vento sorrindo.

      Só que coisas estranhas aconteciam: havia pobres e ricos. Os negros eram os mais pobres entre os pobres. Ninguém se espantava. Dona Eni não se lamentava. Apenas exclamava entre dois suspiros longos:

– Destino, filho.

      Os ricos nem eram tão ricos. Exceto pelo fato de que os pobres eram muito pobres. Na democracia da rua, com a cabeça de boneca rolando, não havia diferença de classe, mas os mais pobres tinham mais classe para realizar as jogadas. Depois, uma divisão aparecia nítida como uma imagem ensolarada: de um lado, um barraco; do outro, a “casa boa”. De manhã, uma parte ia para a escola no centro da cidade; a outra, corria para a escolinha desbeiçada. Cada um levava suas bolinhas de gude. Mesmo os ricos da rua não tinham uma bola de couro.  

      Nos abraços depois do gol eram todos iguais. Nas festas de final de ano apareciam diferenças: presentes, comidas, enfeites, viagens. Em algum momento, surgiram as agendas: inglês, balé e judô para uns; rua e trabalhos esporádicos para outros. Os encontros diminuíam, as bolinhas de gude já não brilhavam ao sol, os corpos espichavam, as casas pareciam não se enxergar, janelas e olhos fechados umas para as outras. Jamais se entrava no espaço privado do outro. A rua era o campo neutro onde a convivência fora possível antes de uma nova divisão, a dos clubes, das miniboates, dos bailes e das piscinas.

      Por fim, veio o tempo das partidas, sem adeuses ou cerimônias, das apostas e das trajetórias. O presente deixou de existir como expressão das melhores risadas, o passado esfumaçou-se e o futuro ganhou dimensão de única realidade possível. O tempo ficou lento. Cada ano ganhou ares de uma década. Mesmo assim, com essa nova e bizarra dinâmica, o tempo passou deformando corpos e transformando mentes nem sempre para melhor. Já era hora de voltar para ver os sinais da mutação imposta pelo “destino”. Partia-se de ônibus ou de trem. Voltava-se de carro ou de avião. Os trens, como o passado, morreram.

      Ficaram os trilhos como rastros de uma maneira de existir. Na rua, a “casa boa” envelheceu. O barraco deu lugar a outro semelhante. Numa cadeira de balanço, uma senhora centenária sorri generosa:

– É o destino, o destino – diz.

      No último naco de areia meninos jogam bolinha de gude, que refulgem ao sol de dezembro enquanto as gargalhadas quase não cabem nos corpos tão pequenos. Junto ao muro, uma bola de futebol.


      O tempo não para. Quase tudo se repete melancolicamente.