Juremir Machado da Silva

Dançar com índios e pensar com eles

A vida é breve. Nós é que podemos ser demorados. Não tem preço atravessar o país para almoçar com os amigos da Universidade Federal do Amazonas –– Mirna Feitoza, Gilson Monteiro, Wilson Nogueira, Rosário e Renan –– à beira da floresta, uns 23 quilômetros depois da impressionante Ponte do Rio Negro, batizada pela sabedoria popular de Ponte do Bilhão. Ganha um milhão (de elogios) quem adivinhar a razão. Não tem preço comer pirarucu, tambaqui, tucunaré. Não tem preço ouvir uma jazz band no monumental Teatro Amazonas, joia da borracha. Não tem preço participar de uma banca de mestrado, na sede do Sindicato dos Jornalistas, numa boa integração entre academia e prática, sobre o logotipo da Zona Franca de Manaus, rebatizada de PIM (Polo Industrial de Manaus). Não tem preço bater um papo sobre jornalismo no bar do Armando, conversa de velhos guerreiros sempre prontos para os combates, no centro histórico de Manaus, numa mesa na calçada.

Não tem preço saber que os amigos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFAM criaram uma disciplina de Tecnologias do Imaginário, a ser ministrada por Wilson Nogueira, conceito criado por este reles cronista e professor. Dei a aula inaugural da cadeira. Não tem preço aprender em movimento. Não tem preço fazer turismo, rever pontos incontornáveis como o encontro das águas dos rios Solimões e Negro, comer num restaurante flutuante, ver as casas sobre a água das populações ribeirinhas, nadar com botos, fotografar vitórias-régias e sentir a energia da Amazônia. Não tem preço visitar uma comunidade indígena. Faz pensar em Jean Baudrillard e em suas visões da América. São índios aculturados, que trabalham para uma agência dançando para turistas. Sobrevivem assim: 40 pessoas de etnias diferentes. Crianças lindas. Uma visão rigorosa pode lamentar que tenham sido tragados pela sociedade do espetáculo. Conversei com o pajé sobre isso.

– Precisamos ganhar nossa vida – ele disse.

Dançaram para nós. Dançamos com eles. Ao vê-los do barco, com suas penas coloridas, sentimos um sopro de autenticidade. É como se eles estivessem congelados no tempo e, simultaneamente, arrancados da origem. O pajé me deu o seu número de celular. Uma índia dançava com o bebê no braço usando fralda descartável. Apesar disso, um imaginário emanava daqueles passos, sons e vestígios. Há índios que rejeitam se “espetacularizar”. Não seria eu a condenar uns e outros. Gostei de dançar conduzido por uma índia sorridente e alheia às minhas inquietudes de intelectual. Uma parte de mim conserva uma ingenuidade quase romântica. Confesso que me emocionei num momento desse encontro para turista ver: a hora em que as crianças índias – curumins risonhos – convidaram as crianças visitantes para dançar.

Havia alegria e pureza nos olhares que se cruzaram e nas mãozinhas que se enlaçaram sem um segundo de hesitação. Ali, não havia tempo nem culturas separadas. Quase cedi ao convite do pajé:

– Pode vir passar um tempo aqui e até morar no mato.