Juremir Machado da Silva

Das cavernas ao Faustão

Salto civilizacional

 

      Eu me pego pensando no incrível desenvolvimento da humanidade. Que história fantástica das cavernas aos nossos dias de supremacia tecnológica. Eu me faço e refaço esta pergunta em tom de perplexidade: de onde viemos e onde chegamos? Ficamos eretos, descobrimos o uso do polegar opositor, passamos a criar ferramentas, dominamos o fogo, domesticamos plantas e animais, inventamos alfabetos, criamos suportes para armazenar e transmitir informações, organizamos Estados, religiões e sistemas complexos de administração da vida em sociedade.

Tudo isso para quê? A resposta depende de vários encadeamentos. A história da comunicação de massa, por exemplo, é espetacular. Quanta inteligência empregada para inventar tudo o que usamos hoje sem ter a menor ideia de como funciona! Para chegar à televisão foram necessários milhares de anos de pesquisa e de amadurecimento dos saberes. A gente aperta o botão do controle remoto e não pensa em quanto de genialidade foi necessário empregar até se alcançar esse momento mágico e simples de fazer funcionar um aparelho eletrônico doméstico tão pacífico e disponível. Quase me ajoelho para reverenciar tantas descobertas. Aí volto a me perguntar: tudo isso para quê?

Estendo a mão e pego na estante um dos meus livros preferidos: “A evolução da humanidade”, do arqueólogo Richard Leakey. Ele escreveu: “Durante dois milhões de anos, no mínimo, nossos ancestrais seguiram um estilo de vida tecnológico simples, mas imensamente bem-sucedido. A estratégia inicial do apresamento oportunista da carniça, combinada com a coleta organizada de vegetais, gradualmente evoluiu para um estilo de vida de caça e coleta, ocorrendo esta transição provavelmente há cerca de 1,5 milhões de anos”. Nunca paramos de evoluir, de avançar, de mudar, de aperfeiçoar nossas técnicas e de revolucionar nossos estilos de vida. Nunca somos os mesmos. Para quê?

Fomos do mais simples ao mais complexo. Onde estamos? O que conquistamos? Em qual estágio nos situamos? Observo em cada detalhe da nossa vida cotidiana os sinais dessa longa e lenta evolução. Não sou um evolucionista convicto. Não pretendo convencer alguém de que o presente é sempre melhor do que o passado. Tampouco me passa pela cabeça opor civilização a vida “selvagem”. Só estou revelando meu fascínio pelo que a humanidade criou e continua criando. Tudo isso para chegar aonde? Liguei a televisão no último domingo ao acaso e compreendi tudo subitamente. Foi uma revelação, uma grande iluminação.

Como pude levar tanto tempo para sacar? Como não percebi a realidade? Como me deixei enganar procurando a resposta em outros lugares? A humanidade caminhou do nada ao tudo para desembocar no Brasil em algo admirado por milhões de pessoas, que recompensam com audiência e em consequência com salário milionário o homem que as alimenta a cada semana com novas doses dessa matéria criadora de dependência: as videocassetadas do Faustão. Por um instante, vacilei e me perguntei: será que, vez ou outra, ele sente vergonha? Erro meu.