Eu detesto mexer com o que é importante para alguém.
Cada um com seus valores e ídolos.
Fico constrangido quando tenho de ferir sensibilidades.
Mas não posso deixar de comentar este fato extraordinário: Bolsonaro queria explodir bombas?
O candidato de extrema-direita mais em moda no Brasil articulou movimento "paredista" por melhores salários e foi preso por "transgressão grave". Atentou contra a disciplina, a ordem, a cadeia hierárquica, e foi preso por "ter ferido a ética, gerando clima de inquietação no âmbito da organização militar" e também "por ter sido indiscreto na abordagem de assuntos de caráter oficial".
Que que é isso, companheiro?
O capitão insubordinado assinou texto de opinião na revista Veja, publicação adorada pelos seguidores do Bolsonaro atual, em 3 de setembro de 1986, reclamando aumento de salário.
Era o Bolsonaro sindicalista de caserna?
Em 25 de outubro de 1987, a mesma revista publicou reportagens sobre "Pôr bombas nos quartéis, um plano na Esao". Bolsonaro e parceiro fariam parte da Operação Beco sem Saída (nome apropriado para a fria em que se meteram), na qual, segundo a Folha de São Paulo, se "afirma que Bolsonaro, lotado na Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais, e outro militar, Fábio Passos, elaboraram um plano que previa a explosão de bombas em unidades militares do Rio para pressionar seus superiores. Segundo a reportagem, Bolsonaro teria dito que haveria "só a explosão de algumas espoletas" e explicou como construir uma bomba-relógio à base de TNT". O acusado negou e continua negando.
Todos negam. Nunca sabem de nada.
Lula não sabia de nada. Bolsonaro também não.
A sequência de fatos recuperada pela Folha de São Paulo é impressionante:
"1º.nov.1987
"Veja" publica uma segunda reportagem, "De próprio punho", na qual traz o fac-símile de um croqui que teria sido desenhado por Bolsonaro com pontos em que as bombas seriam distribuídas. Ele nega a autoria repetidas vezes
13.nov.1987
Sindicância da Esao conclui que há aspectos a serem melhor investigados e sugere remessa dos autos a um Conselho de Justificação
15.dez.1987
Acusação diz que Bolsonaro agiu "comprometendo a disciplina e ferindo a ética militar"
8.jan.1988
Laudo de exame grafotécnico da Polícia Federal afirma que partiram do punho de Bolsonaro as anotações no croqui entregue pela "Veja"
25.jan.1988
Em sessão secreta, o Conselho de Justificação decide por unanimidade considerar Bolsonaro culpado
"O Justificante [Bolsonaro mentiu durante todo o processo, quando negou a autoria dos esboços publicados na revista "Veja", como comprovam os laudos periciais do Instituto de Criminalística da Polícia Federal e do 1º Batalhão de Polícia do Exército"
16.jun.1988
Por 8 votos a 4, os ministros do Superior Tribunal Militar consideraram Bolsonaro "não culpado" das acusações, diz que duas perícias confirmaram a autoria e duas não a confirmaram, o que configura "na dúvida a favor do réu"
Sobre o texto na "Veja", o STM decidiu que "o justificante assumiu total responsabilidade por seu ato, foi punido com 15 dias de prisão"
22.dez.1988
Segundo extrato da ficha cadastro de Bolsonaro, fornecido pelo Exército à Folha, o militar "foi excluído do serviço ativo do Exército, a contar de 22 de dezembro de 1988, passando a integrar a Reserva Remunerada"."
Eis tudo.
Bolsonaro questionado como mentiroso, agitador, terrorista (planejador de bombas) e aposentado precocemente. Um prêmio pela sua insubordinação? Isso não é impunidade?
O Bolsomito virou Bolsomico?
Foi ele quem disse isto: "Nosso Exército é uma vergonha nacional, e o ministro está se saindo como um segundo Pinochet".
Estou perplexo.
Nem Bolsonaro seria o que diz ser!
Definitivamente este país não é sério.
Bolsonaro classifica a reportagem da Folha de São Paulo de "m..."
A culpa é sempre do sofá.