Juremir Machado da Silva

De medíocre a midiocre: quando o deslocamento do "e" ao "i" faz toda a diferença na sociedade

Jacques Derrida foi um dos maiores intelectuais do século XX.

Segui o curso dele na Escola Superior de Altos Estudos, em Paris, durante quase três anos.

Derrida consagrou a desconstrução.

Máquina de produzir conceitos, com qualquer filósofo, notabilizou-se com um deslocamento ortográfico: de "différence" a "différance". São dois termos que, em francês, têm a mesma pronúncia. O primeiro significa tanto adiar quanto diferenciar.
Esse suposto erro gramatical, cometido em 1963, introduziu uma diferença gigantesca, um salto intelectual.

Qual?

A filosofia de Derrida encarregou-se de mostrar.

O jogo de palavras põe as palavras em jogo.

Num dos poemas concretos mais célebres, Augusto de Campos, fala em "extudo".

Sem, obviamente, as aspas.

Não se pode colocar uma sinaleira piscando no lugar onde deve se acender o pensamento.

Ou ele se apaga de vez.

Este pensador do sul do mundo, palomense "falquejado" em Paris por mestres complexos e sem complexos, acredita na desconstrução e na produção de novos sentidos pelo deslocamento semântico a partir do deslocamento ortográfico.

A sinalização depende do contexto.

Meu livro sobre a passagem ao hiperespetacular, o fim do direito autoral, do livro e da escrita, busca caracterizar uma época.

Entramos na Sociedade Midiocre.

Deslocamento do "e" para o "i".

Do medíocre para o midiocre.

Tenho recebido deliciosas advertências sobre um "erro" na capa do livro.

A mediocridade foi um tempo suportável.

A midiocridade é outro patamar.

Melhor?

Pior?

Na mediocridade tivemos maus autores.

Na midiocridade talvez não tenhamos mais escrita.

Seremos, quem sabe, todos analfabetos.

Supremacia da voz e da imagem.

Retorno ao oral.

Consagração da mídia.

A midiocridade pode ser a fase superior da mediocridade.

Ou o seu fim.

Chega de sinaleira.

Quem quiser saber mais, terá de ler o livro.

Ele pode ser comprado baratinho ou facilmente pirateado na internet.

Ou sou apenas o Derrida de Palomas.

Não se constranjam em me insultar.

Inteligentemente.