de Paris a Graissessac
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de Paris a Graissessac

Passeios pela França da canícula

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 Caminho pelas ruas de Paris ao cair da noite. A temperatura beira os 40 graus. É o que os franceses chamam de canícula. O termo é assustador. Remete a milhares de mortes de pessoas idosas. O país prepara-se para enfrentar as temperaturas extremas com o zelo de quem sabe os perigos de uma catástrofe climática. Parques são autorizados a abrir durante as noites, vaporizadores são instalados nas ruas, áreas de frescor são indicadas às pessoas. Falta ar-condicionado gelado na maioria das linhas de metrô. A vida nos subterrâneos passa da penumbra ao suor que brilha e do brilho do suor ao multiculturismo universal.

      Ando por estas ruas que conheço há 30 anos e sinto prazer em ver, como na letra de uma famosa canção, “les filles à bicyclette”. Agora, charme dos novos tempos, as meninas andam juntas num mesmo patinete. Ou correm com seus namorados, deslizando entre monumentos, cabelos esvoaçantes, com seus vestidinhos coloridos de uma sofisticação simples como a simplicidade costuma ser. Nos cafés e nos restaurantes há tanta gente aparentando felicidade que reclamar do calor soa como uma desfeita. O dia só vai desaparecer pelas dez da noite. A cidade-luz esparrama a sua luminosidade natural até tarde.

      O Sena exibe a placidez das suas águas como que posando para mais um quadro impressionista ou complacentemente para mais uma selfie com um turista vindo de perto ou de longe. Ao fundo, porém, a Notre-Dame é como uma ferida exposta. O símbolo maior de Paris ainda não se curou do incêndio que o devastou não faz muito. As chagas cintilam por trás dos tapumes.  Os vitrais poupados pelas chamas parecem olhos tristes exalando cores em meio ao cinza de tudo que partiu em fumaça. A noite de verão não aceita tristeza nem melancolia. Cobra o seu preço em alegria. Quer pessoas dispostas a comemorar o bom tempo, os belos dias, a estação que todos esperam e temem com suas temperaturas impiedosas e seus amores inesquecíveis. Só o valor do euro, para os brasileiros, é mais implacável. Quem se importa quando tudo pulsa?

      Contato meu velho mestre Edgar Morin, que fará 98 anos em 8 de julho, para encontrá-lo em Montpellier, cidade que escolheu para estar sempre em companhia do sol e do mediterrâneo. Ele me pede para ficar mais uns dias, que o espere, pois foi convidado para ir ao Vaticano encontrar o Papa. Quem pode fazer alguma objeção? O tempo é senhor dos dias e também das noites, especialmente das noites de verão, quando muitos são tomados de uma vontade frenética de viver ou de sair por aí vendo viver. Caminhamos pelas ruas de Paris e não podemos deixar de comentar: a viagem parece cada vez mais longa e cansativa. Paris vai reconstruir a Notre-Dame. Não se contentará em fazer uma cópia do que foi queimado. A sua magia consiste em mesclar o antigo e o novo.

      Deus nos deu o Brasil prontinho. Rio de Janeiro é uma cidade esculpida por mão divina. Paris se contenta com a obra de homens. Paris, 40 graus, a capital francesa sempre queima. Não é melhor do que outras. É diferente. Faz questão de exibir-se em noite escaldantes.

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Dia em Paris

 

      Não sou um grande amante do turismo e dos longos deslocamentos. Já fui. Canso cada vez mais nas viagens aéreas. Aviões e aeroportos me entediam. Sofro com fuso horário: cinco horas de diferença nesta época entre o Brasil e a França. Durmo logo que chego, acordo de madrugada e tenho insônia. Venho a Paris todo ano a trabalho. Deveria vir duas vezes por ano à reunião do conselho editorial da revista Hermès, do qual sou membro titular, dirigida por Dominique Wolton e publicada pelo Centro Nacional de Pesquisa da França. Por falta de tempo, negociei para vir uma vez a cada ano, em junho ou novembro. Há mais obrigações. Desta vez, um colóquio na Universidade de Montpellier.

      O que faço por aqui no pouco tempo que sobra? Leio o último romance de Michel Houellebecq, Serotonina, à sombra das árvores do Jardim de Luxemburgo. Encontro amigos. Faço entrevistas. Vim com um projeto de entrevistas com intelectuais: jogo de ideias, direita e esquerda, o que aproxima e separa os que se dedicam a pensar o mundo em 2019. Já entrevistei, no velho café Saint-Augustin, um dos mais clássicos de Paris, frequentado por jornalistas e políticos, o polemista da extrema-direita mais em voga, o mais contundente, Éric Zemmour, colunista do jornal Le Figaro e autor de alguns best-sellers como “Suicídio Francês”. Para ele, a imigração é o mal a combater.

      Claro que fomos ver a Notre-Dame pós-incêndio. É um monumento tão grandioso que, reduzido à carcaça, como um navio encalhado, despojos de um naufrágio, a igreja permanece imponente, majestosa, altiva, cercada de turistas, como se atraísse ainda mais gente para ver o que dela restou. Paris é uma cidade para caminhantes incansáveis. Nestes dias de canícula, temperaturas entre 35 e 40 graus, só camelos resistem bem aos passeios. É preciso transportar muita água. As bancas de jornais, espaços típicos de cidades de grandes leitores, estão em franca transformação. Ou viram pequenas lojas de conveniência ou desaparecem como as cabines de telefone.

      O espetáculo que mais me agrada em Paris é dos finais de tarde: sentar num café de calçada e observar a humanidade passar. São homens e mulheres de todas as línguas, vestimentas, costumes e semblantes. Para quem gosta de detalhes práticos, uma garrafa de água custa cinco francos, quase 25 reais, nos bistrôs. A maioria prefere ir logo para os vinhos nacionais. O vinho da casa resolve. De qualquer maneira, para a sede os restaurantes servem água da torneira e quase ninguém recusa. Pouco coisa muda em cidades de tradição assentada. Gosto dessa permanência, dessa quase imutabilidade, dessa perseverança no que foi testado e aprovado. Paris parece não viver acossada pelos fanáticos por novidades. É um paradoxo: sempre nova e diferente, sempre a mesma.

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Depois, três dias em Montpellier num colóquio sobre Imaginário e cotidiano. Encontro com a França sempre iluminada e com amigos sempre encantadores. Evento forte.

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Por fim, uma noite e um dia em Graissessac, vilarejo natal de Michel Maffesoli. Um lugar de sonho, paz, ar puro, montanhas, verde, tranquilidade e pessoas amigas.

Sou da tribo do Maffesoli, aqueles que querem fechar o ciclo voltando para casa. Graissessac é a Palomas de Michel, onde tem um casa maravilhosa, uma adega, uma biblioteca, uma infância e livros para escrever sem a pressa de Paris.

 

Recebi aqui a notícia de que fui agraciado com a Medalha do Mérito Farroupilha por iniciativa do deputado Jeferson Fernandes (PT). Estou feliz. Agradeço a ele e à mesa diretora da Casa. Para quem foi guri em Palomas, de onde a alma não sai, é uma baita honraria. Gracias. Merci.

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Na foto, uma cena de Graissessac.